Sofia Batalha

Colecção da Casa Simbólica 

Curso de Feng Shui

A duração do tempo depende das nossas ideias.
O tamanho do espaço depende dos nossos sentimentos.
Para aquele cuja mente é livre de cuidados,
Um dia ultrapassará um milénio.
Para aquele cujo coração é grande,
Um pequeno lugar é como o espaço entre o céu e a terra.
Poema tradicional chinês

Originalmente o poema acima termina com um caracter que representa a lua debaixo de um portão.
Para um chinês que use a sua linguagem conscientemente, este ideograma demonstra o momento delicado do luar que passa pela fresta de uma entrada. Expressando profundamente os dois componentes simultâneos do sentido de lugar: o objectivo (formas, luz, cores) e o subjectivo (as sensações associadas e o “não visto”).

Somos indissociáveis do nosso contexto, seja social, cultural, familiar, temporal ou espacial.
Seriamos pessoas diferentes se tivéssemos nascido num local diferente. Como seriamos se tivéssemos nascido num deserto? No sopé de uma alta montanha? Numa ilha com mar transparente? De que forma a nossa personalidade e percepção do mundo seria modificada pela mudança de contexto?
Todos temos, de uma forma de ou de outra, relações profundas com o local de infância, seja na sua geografia ou memórias contidas. Em viagem podemos também sentir ligações com outros locais, onde nos podemos sentir em casa, ou que podem despontar sensações de calma, conexão profunda ou mesmo de ambivalência ou tristeza.

Todos nós sabemos quais os nossos locais favoritos, além disso todos conseguimos sentir ao chegar a um novo local se estamos ou não confortáveis nele. Há quem prefira cidades grandes, dinâmicas e cheias de vida humana, há quem prefira locais selvagens. Se perguntar a alguém o que torna determinado local tão especial prepare-se para ouvir uma história muito pessoal.
Independentemente da cultura, os nossos antepassados detectaram que cada local tinha qualidades próprias, atribuindo-lhe muitas vezes características humanas ou mesmo sagradas e divinas. Esta qualidade única e talvez mesmo mística tornou-se conhecida como Genius Loci ou o espírito do local.

O Espírito do local é um conceito que tenta definir o indefinível. Este conceito tem em conta todas as características de um local, tais como a geografia, o clima e a cultura, que dão forma à energia contida em determinado local. O Genius Loci sintetiza a vibração específica de cada local.
Os romanos definiram o Genius Loci como uma entidade, um espírito cuja função é proteger os lugares. Para os chineses o termo não existe propriamente, no entanto, todo o estudo formal e energético de um espaço, exterior e interior, feito através do feng shui é na verdade uma leitura e interpretação do espírito do local.
Para esta cultura oriental toda a paisagem é animada de energia, cada pedra, regato ou montanha têm uma história, personalidade, energia e vibração próprias, que na sua conjugação e interacção geram as características únicas de cada local da terra.
Antigamente antes de se fazer qualquer alteração ou construção, o espírito do local era sempre consultado e interpretado, por anciãos ou xamãs, normalmente num ritual oracular.
As construções humanas intervêm directamente no espírito do local, podendo amplificar as suas qualidades ou destruir a sua alma.

Hoje em dia vivemos num contexto muito modificado, construído e urbanizado, que nem sempre tem em conta um equilíbrio energético e saudável de cada zona. A despersonificação deste carácter mágico e único de cada local faz-nos estar mais distantes da nossa envolvente natural, faz-nos não a respeitar da mesma maneira.
Por outro lado as nossas mentes inconscientes estão constantemente a receber informação dos espaços onde trabalhamos e vivemos. A qualidade dos lugares que habitamos influencia directamente a nossa capacidade de ser e agir. A cada momento a nossa experiência da realidade é moldada pela qualidade do local, pela personalidade e pelo nosso estado de espírito.
Tal como a energia especifica de cada local também cada ser humano tem do seu próprio génio pessoal, que é composto, entre outras coisas, pela sua genética e localização de nascimento.
Segundo a cosmologia chinesa há três dimensões essenciais da realidade. O céu que representa o tempo e de onde vem o nosso génio pessoal. A humanidade, onde cada indivíduo se expressa unicamente, pois como seres humanos somos muitíssimo diversificados. E a terra, o contexto geográfico e formal dessa expressão.
Todos temos um acesso directo ao rico legado do espírito do local onde as nossas vidas se desenrolam.
Para tomar consciência desta energia subjacente a qualquer espaço é preciso estar atento, não com a mente mas com os sentidos. É preciso estar centrado, alinhado e enraizado. Existe uma interligação profunda entre a nossa alma, a nossa energia mais pura, e o nosso ambiente.

Proponho um exercício de conexão ao espírito do local onde se encontra neste momento, pois é a melhor forma de “entender” esta interligação primitiva e constante na nossa vida.
Sente-se confortavelmente, de costas direitas e ombros longe das orelhas.
Respire profundamente, lentamente. A cada respiração completa liberte tensões no seu corpo permitindo-se ficar cada mais relaxado e centrado no aqui e agora.
Sinta os pés bem implantados no chão e a energia da terra que por eles sobe, sinta o topo da cabeça e a energia cósmica que por aí desce. Lenta e de forma segura.
Activando a conexão com o céu e a terra permita-se tornar consciente do espírito do local que o envolve. Poderá ter sensações físicas, como arrepios ou sensações de calor. Poderão aparecer memórias ou cheiros. Podem surgir sons ou imagens, visões internas que dão uma forma simbólica ao espírito do local envolvente. Permita que a energia se manifeste, sentido-se em segurança e ancorado. Deixe que a vibração do local fale consigo, sintonize-se à sua linguagem ancestral. Vibre com os seus significados. Simplesmente ouça! Permita-se sentir plenamente o que este espaço em particular tem para lhe comunicar. Agradeça a sua presença, agradeça o seu legado.
Lentamente retorne ao corpo. Feche o canal dos pés e do topo da cabeça. Abra os olhos. Inspire profundamente e anote a sua experiência.

Artigo presente no 4º Número da Revista Vento e Água – Feng Shui LifeStyle