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O Cão Negro
{o rosnar e o cinismo}
“Temos muitos restos megalíticos, alguns ainda pintados ou esculpidos. Nos nossos contos populares, temos um antigo ser chamado “Mouras”, velhas forças telúricas e ctónicas (potentes e sagradas energias primevas geradas pelo lugar) que guardam lugares especiais. Elas aparecem nos solstícios e equinócios, ou à meia-noite. São geralmente mulheres que se transmorfam em cobras na sua maioria, mas também em grandes cães negros (…).” daqui
*
O Cão Negro espreita-me da sombra da soleira. O seu corpo desfaz-se a cada pêlo, recompondo-se a cada piscar de olhos. Rosna baixinho enquanto se transforma, corpo fractal, sempre a mudar. Faz e refaz. Uiva, talvez esteja sozinho. Sinto-lhe a respiração húmida, demasiado perto, demasiado quente. Enquanto a saliva pinga das suas presas afiadas e as garras raspam no chão de terra seca. Aperta-me o coração, não de tristeza, mas de raiva funda. Rasga-me por onde não me consigo expressar. Talvez ele sempre aqui tenha estado, o Cão Negro de olhos dourados e corpo fractal, tão antigo quanto o tempo, tão presente como a cinza e a rocha. Não sei se me quer comer ou dar a pata, se se quer aninhar de cansaço ou correr comigo daqui para fora. Se me guia ou aprisiona. Talvez ele também não saiba.
*
Há uns tempos descrevi-me numa curta biografia “(…) curiosa, no espectro do cinismo”. Hoje mergulhei ao escutar este rosnar que me arrepia os pelos da nuca. Volto à palavra cinismo, que vem do grego kynismos, de kyon/kynos, que significa ‘cão’ (da raiz PIE *kwon).
Os filósofos cínicos eram literalmente chamados “os que vivem como cães”, o que, no início, não era um insulto. Os filósofos cínicos viviam sem máscaras sociais, rejeitando as convenções hipócritas e revelando a falsidade do poder. Os que viviam como cães, como Diógenes de Sinope, viviam na rua, eram diretos, corporais e até “indecentes”. Criticavam as autoridades e faziam coisas consideradas “vergonhosas” em público, precisamente para mostrar que a vergonha social era construída. Diógenes estudou filosofia com Antístenes, um tipo rude que lecionava num ginásio chamado «O Cão de Prata», no antigo bairro dos jardins, nos arredores de Atenas. Estava aberto a estrangeiros e às classes mais baixas e, portanto, a Diógenes. Os espíritos perspicazes da época brincavam com o seu nome, chamando aos seus membros cães vadios, daí o termo cínico. [Guy Davenport, «Seven Greeks»]
Talvez o cão já tenha sido capturado aqui, rosnando numa ordem que precisava dele como escape.
*
Recentemente, a ONU declarou a escravatura o crime mais hediondo da humanidade. A Europa absteve-se. As garras raspam no chão de terra seca. Sabendo que este voto não muda as condições materiais, o corpo original de cinismo encena o que sinto em relação a Portugal (e à Europa): a vergonha, a recusa da limpeza histórica e o desconforto com as narrativas polidas. A mentira estrutural impossível de desver. A sistemática recusa em deixar que o corpo da história contamine a identidade nacional. Porque nada pode desorganizar o orgulho de uma história construída de corajosos heróis limpos.
O Cão Negro, de olhos dourados, tão antigo quanto o tempo, recusa-se a aceitar a esterilização da história, como se fossem fragmentos e não uma fundação estrutural. O seu pêlo fractal eriça-se perante o “orgulho histórico” dos “descobrimentos” e da “expansão”, trazidos para não deixar que a narrativa colapse. Sinto no meu corpo o frémito da sua pele metamorfa, os seus músculos hirtos e prontos a atacar perante o desfasamento entre a realidade e a violência massiva e estrutural, de como é mantida “limpa”, narrável e aceitável. Dos corpos extraídos à força, amputados e punidos, exilados e silenciados, em omnicidios ainda a acontecer. Pago o preço, afasto-me para o canto, isolo-me. Não consigo entrar no discurso nacional sem sentir fricção. Pago em pertença o custo da não-colaboração com o esquecimento ou a cegueira.
Para lá da sombra da soleira, está o Cão Negro, que recusa a anestesia, mas não lhe consigo chegar. Se calhar também não quero, pois já sinto os seus dentes a perfurar-me a mão. Dói. Muito. Afinal, a anestesia ainda é necessária neste meu corpo, apesar da frustração de não poder transformar totalmente nem de encontrar espaço coletivo para tal.
*
Agachada aqui no canto, fico a pensar como o cinismo moderno torna a colonialidade possível. Sim, estou a inverter o que é tido como sintoma para causa, pois, afinal, é um ‘loop’ fractal. Faz e refaz, faz e refaz. A colonização pode ser um produto de uma mundividência cínica pré-existente. Afinal, o cinismo moderno pode ser a cosmologia que permitiu a criação deste violento sistema, a condição psicológica que torna a colonialidade pensável, aceitável e reproduzível. Porque não é só uma atitude de “nada importa”, mas uma estrutura que universaliza o humano como inerentemente egoísta, assumindo que só o interesse próprio move tudo. Esta estrutura desacredita a possibilidade de relações genuínas e dessacraliza a vida. O mundo deixa de ser relação e passa a ser objeto e recurso. E isto facilita a exploração, hierarquia, dominação e colonização. O cinismo moderno descarta o emaranhamento da vida como fantasia romântica.
Este é um cinismo ontológico sobre a vida, os humanos e o mundo, que gera sistemas coloniais de hierarquia e exploração. Por sua vez, estes sistemas produzem mais cinismo, desilusão e apatia. O cinismo reforça o sistema, pois ninguém acredita que possa mudar.
Ao descrever-me como no “espectro do cinismo”, com o Cão Negro a rosnar do outro lado da soleira, posiciono-me como filha da colonialidade. Sei que o sistema é injusto, mas continuo a agir nele. Vejo-o, mas continuo agachada no canto. Tenho medo, pois, afinal, preciso de reconstruir o vínculo, não com uma ideia redentora de mundo que me mantém no centro, mas com um mundo metamorfo que morde. Tão vivo e sagrado como monstruoso. A institucionalização colonial do cinismo, em estruturas dentro e fora de nós, pesa-nos no corpo. Sabemos que o sistema é violento, mas continuamos nele por inércia. Não necessariamente apenas por comodidade, mas também pela fadiga de ver as contradições e pela frustração de nada mudar. Por erosão da própria imaginação. No meu contexto branco colonial, onde nada é posto em causa, o corpo, cansado, desliga por falta de ressonância.
Este cansaço não é o mesmo que o “cinismo colonial”. Se o cinismo colonial diz: “nada tem valor, posso explorar”. O cansaço diz: “tudo tem peso e eu já não aguento carregar tanto”. Se o primeiro traz dessacralização e mata mundos, o outro vem da sobrecarga de sentir/ver e dos silêncios das vozes amputadas. Mesmo aqui, do canto, vejo-lhe a saliva pingar dos dentes, enquanto me fura com o olhar dourado. Pois claro que estou presa ao mesmo ‘loop’: vejo, canso, afasto-me e o sistema continua. Na verdade, como me lembra o Cão Negro, o sistema não precisa que acreditemos nele, só precisa de nos manter demasiado cansados para o confrontar, uma e outra vez. A exaustão de ter esperado a mudança que não veio ou de ter investido energia sem retorno. O esgotamento dos debates sem escuta, baseados no melhor desempenho, o “ter razão” como moeda social. Mantenho-me aqui no canto, não por indiferença, mas por recusa em participar numa forma vazia. Daqui do canto vejo que a casa está vazia e em ruínas, paredes nuas de falta de escuta, soalho cimentado à curiosidade real, portas fechadas à alteridade.
Talvez me isole aqui não apenas para fugir, mas porque não sei como continuar em relação sem cair na lógica de disputa e esgotamento. E o sistema continua a vencer, pois desliga-me, cansa-me das formas empobrecidas de pensar em conjunto.
Este é o cinismo do colapso, o do corte entre o virtual e o visceral. É como se já não houvesse distância suficiente para sustentar ilusão e não houvesse corpo suficiente para metabolizar o que vem. O corpo entra em curto-circuito pelo sentir que tudo está ligado e que tudo importa, e pela incapacidade de agir à medida dessa consciência. Como habitar este colapso sem endurecer nem desligar?
O cinismo moderno torna-se elegante, aceitável, até “maduro”, quando, na verdade, é uma forma sofisticada de não tocar nas feridas. O cinismo é quase uma estratégia de resolução da dissonância; não resolve de verdade, mas alivia o desconforto. É o cinismo institucional, que se distancia, como observador neutro, irónico e que protege a narrativa do poder hegemónico. Mantém a ilusão de normalidade. Daqui do canto, sinto o Cão Negro, de corpo fractal, a pôr uma pata dentro da soleira. O meu corpo estremece, pois o seu olhar dourado vê através das ilusões. Afinal, kynismos é corpo não domesticado, visceral e sem filtro, enquanto o cinismo moderno-colonial é virtual, em discursos de gestão e proteção de imagem e de abstração.
*
Mas o “cinismo” não é só um acidente moderno, pois está entranhado nos contos tradicionais como sobrevivência. Pois, se o mundo é duro e a justiça não é garantida, temos “naturalmente de mentir, enganar e torcer as regras”. A astúcia e o oportunismo fazem-se presentes como naturais e inevitáveis. Se nos contos antigos, o cinismo era uma resposta a um mundo duro, agora o cinismo faz parte da própria estrutura que mantém o mundo duro. Como se fosse inevitável.
Há várias “máscaras” de cinismo e todas aparecem nos contos: o cinismo brutal (sobrevivência), o mundo é injusto, então jogo o jogo; o cinismo dissociado (evitar dor), nada me afeta, logo não me implico; o cinismo ideológico (neoliberal espiritual), tudo é mindset, apaga estrutura; o cinismo satírico (expor poder), de Basile que ridiculariza a autoridade. Na tradição eurocêntrica e estruturalmente racista dos contos, Lucia (a escrava negra em As Três Cidras do Amor) utiliza um engano lúcido e cínico para usurpar o lugar da heroína. Ao ser confrontada pelo príncipe sobre a mudança da sua aparência (de branca para preta), ela responde friamente que está encantada: “um ano cara branca, um ano rabo preto”. Não deixa de ser cínico a colonialidade projetar o cinismo de quem usurpou de toda a dignidade.
*
Aqui, do lado de dentro da soleira, ainda escuto o Cão Preto, talvez já tenha sido Moura, a rosnar desde a sombra, a guardar a memória funda e visceral de outras formas de dignidade. Começo também a rosnar, inquieta, entre a denúncia e a legitimação. O sistema (colonial-cínico) impede que a dissonância vire dilema, ao oferecer respostas rápidas, ao produzir discursos prontos e ao criar debates vazios, que mantêm a ferida longe e suturada. Mantém tudo ao nível da dissonância, sem nunca assumir o colapso real. O que sentimos como cinismo pode ser, na verdade, o cansaço de sustentar um dilema num mundo que insiste em resolvê-lo superficialmente.
O Cão Negro que guarda o limiar sussurra: “há múltiplas realidades sobrepostas”. Tenho a ferida aberta, pois talvez o Cão Negro já me tenha mordido. Escorre em paradoxo e crueza. Esta ferida é tanto luto, como perda de narrativa e de pertença. Sinto-lhe a respiração húmida, demasiado perto, demasiado quente.

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