

Investigação-Oração
TEMPO DE LEITURA 5 MIN
Cheguei a este gesto e práxis de Investigação-Oração aparentemente de forma instintiva aquando da peregrinação através da Senhora da Orada, onde escrevi: “Esta é uma jornada, de Investigação-Oração, que revela e recorda os seres quiméricos como forças vivas e eco-mitológicas.”
Então o que é uma Investigação-Oração?
Quais os seus contornos e origens?
Qual a necessidade de resgatar esta práxis?
Mas o que aparente instinto é muitas vezes um florescimento de toda uma ecologia de saberes vivos, fruto de muitas leituras, desaprendizagens e vivências. Na verdade, a práxis (a junção dinâmica entre teoria e prática que se alimentam multi-direcionalmente) de Investigação-Oração é antiga, nativa, aborígene, originária e indígena. Mamífera. Fala da forma de saber coletiva e integrada como o território vivo, em sabedoria intergeracional, sonhos, cerimónias, contos e cantos. É sempre atenta e está sempre em diálogo profundo com o não humano. É um desfazer contínuo das hierarquias de “saber” modernas, antropocêntricas, patriarcais, psicocêntricas e académicas. É um meandro ritual entre inquietações, perguntas, leituras e escutas diversas.
Não está livre dos paradoxos da modernidade e reconhece que estes saberes de corpos-lugar, sempre situados e contextuais, lutam constantemente pela sua soberania, em violentos ataques de extração, opressão, despossessão e controle de corpos, narrativas e territórios.
É uma forma de participar e conhecer comunitária e não individual, que nos retorna sem triunfo ao chão vivo, pela vida.
Comecemos pelos termos usados. O movimento vivo de Investigar, procura descobrir e procurar, seguindo vestígios, no encalço de pegadas e rastos. Por sua vez, o verbo Orar, refere-se a falar ou rezar perante uma assembleia, ou comunidade, visível ou invisível. A metamorfa oralidade, de sons e sopros corporais que aquecem a garganta e fazem mexer o peito sincopado com o ritmo do coração, pega em resquícios e fragmentos, encontrando vislumbres de outras formas de ser pelo meio dos destroços e das sombras da memória colectiva.
Temos então dois gestos, que entrelaçados, aludem ao movimento de desvendar e recuperar indícios e fragmentos numa prece. A oração ressoa em mim como a recuperação de formas antigas de encontrar e participar no mundo. Aquilo a que chamo a “psique mítica” — a sintonização devocional porosa, o compromisso para além do humano, a intenção de comunicar com/para/com algo ininteligível — é uma forma de relação extática, semelhante a um transe, de nos envolvermos com o mundo; não no estreitamento de categorias, mas na abertura fractal de encontros vastos e amplos, enquanto nos enredamos na investigação ativa.
A Investigação-Oração é então, uma afluência polivocal, a muitas vozes, que incorpora a imaginação, a devoção, o ritual e a fabulação. É uma prática mitopoética que enlaça ecos, sussurros e fios esgaçados para além dos factos lineares ou secos. Tanto evoca, fecundando a imaginação, relembrando e chamando à presença outras camadas de ser. Como invoca, pedindo auxílio, sonhos ou proteção, suplicando testemunho de diversas realidades e seres eco-mitológicos.
A Investigação-Oração não pretende alcançar verdades comprováveis cientificamente, mas sim dançar reflexivamente com as diversas melodias quiméricas da fantasia, da poesia, do sonho e da ficção — entre mitos, contos tradicionais e tudo — que se abrem como portais a partir dos fragmentos dos factos da investigação. Abre-nos à revelação, nos sopros e epifanias que confessam a complexidade e paradoxo das coisas. Caminhamos pelo território no corpo-lugar, e escutamos diferente. Convivemos e comovemos com a vida e a morte.
A Investigação-Oração segue rigorosamente os fios rizomáticos que se desdobram debaixo do chão da nossa psique moderna/ocidental — vestígios de outras formas de caminhar e criar mundo. Apercebo-me agora que este tem sido o processo vivo a que me tenho devotado desde que escrevi o livro “Contos da Serpente e da Lua,” continuando no “Santuário” e nas publicações posteriores — em múltiplas viagens sensoriais de reencontro e entrelaçamento entre histórias, factos, metáforas e ligações improváveis. É o que empurra e puxa nas entrelinhas de um trabalho de investigação com o território que o ancora. Sempre mistérico, sagrado e nunca domesticável. É um caminho de tirar peles, levantar crostas, e desfazer certezas. É um caminho de maturação e responsabilidade.
A Investigação-Oração vem sem dúvida da minha desaprendizagem com as práticas de investigação indígena e psicologias comunitárias, onde as cerimónias e as histórias fazem parte intrínseca do processo simbiótico de investigação, de desaprender e aprender. A investigação indígena é participativa, viva e multi-direccional, e neste conceito o investigador nunca é neutro ou distante, fazendo parte natural da matriz de perguntas e respostas.
Esta forma de investigar é muito diferente do conceito de investigação do nosso contexto cultural ocidental moderno, até o que é aceite como possível e “verdadeiro,” pois este paradigma abre-se ao humor e ao amor, à imaginação e à fertilização cruzada entre diferentes camadas do território, do corpo e da psique. Aqui, os sonhos são tão importantes como os valores de medição rigorosa e numérica. Aqui, somos simbioticamente responsáveis pelos caminhos que trilhamos. Nesta prática não há objectividade neutra, mas há rigor, sendo que os caminhos da transformação são emergentes e não impostos, sabendo que as boas intenções não chegam. A Investigação-Oração abre-se aos fenómenos relacionais entre a ecologia somática e não-humana, numa proposta sempre inter e transdisciplinar, não asséptica ou limitada, mas num activismo eco-mítico de incorporação social, ecológico, comunitário e contextual.
A Investigação-Oração liga-se ao reconhecimento da agência e senciência dos contextos não só intra-psíquicos, mas relacionais, míticos e ecológicos; incorporando a vastidão de seres e consciências não-humanas.
A Investigação-Oração assenta nas premissas do afecto, da partilha e da pertença — de como as histórias partilhadas geram cultura e levantam os véus dos nossos vis condicionamentos. Esta é uma proposta de mudança de cosmo-convivência, para nos movermos além do antropocentrismo. A potência do afecto está enraizada na pluralidade e ecologia de saberes, assim como na constante auto-reflexão crítica, recriando um imaginário colectivo e orgânico.
A Investigação-Oração é assim um processo vivo e plural que se propõe trabalhar com o relacional, com as percepções de poder e a construção da realidade.
Vejo a estética coreográfica da Investigação-Oração como medicina e antídoto à literal e ilusória uniformidade universal, assim como à restrita noção de realidade do ocidente moderno. Dentro desta prática, a fabulação fecunda a realidade com possibilidades híbridas e quiméricas, viabilizando narrativas alternativas.
A Investigação-Oração abre-nos a desvios intencionais das linhas direitas dos factos e métricas que confundimos com a realidade do mundo. Esta prática mitopoética liberta-nos do profundo condicionamento e aprisionamento ontológico em que vivemos. Estas duas ações entrançadas, a investigação e a oração, aludindo ao movimento de desvendar e recuperar indícios e fragmentos numa prece, expandem a nossa visão e sentir, trazendo padrões complexos ao pano que tecemos como mundo.
Por agora, continuarei a investigar e a orar, a contar e a escrever as múltiplas histórias que se vão desenrolando — ou pelo menos parte delas.
Referências:
- https://www.etymonline.com/word/investigate
- https://www.etymonline.com/word/orate#etymonline_v_7109
- https://www.jn.pt/artes/dossiers/portugues-atual/evocar-e-invocar-5471630.html/
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