Eu confesso

Eu confesso:
Que o caminho para a menopausa me tem arrancado da nuvem.

Eu, que comecei a habitar o ecrã como se fosse casa, confundindo presença com notificação, produtividade com pulsação.
Fui chamada de volta pelas vísceras.
Por puxões, ondas e insónia.
Por lutos por sentir.
Num corpo que deixa de obedecer à narrativa linear do progresso.

Uma vertigem.

Na linguagem das teorias da consciência, poderia dizer que o meu “modelo preditivo” falhou. O cérebro deixou de conseguir antecipar o meu próprio território interno. As hormonas, o ecossistema químico que sustenta o SELF afetivo, alteraram o corpo-lugar.

O ruído tornou-se revelação.
O que chamavam “sintoma” era, afinal, um portal.

A menopausa expôs o que a modernidade tenta anestesiar:
Que a consciência nasce nas entranhas. Das vísceras.
Que o afeto precede o conceito.
Que o corpo não é um veículo do eu, mas o solo onde o eu se torna possível.

Eu, como tantos de nós num mundo de tecnologias que nos escravizam e achatam, vivia na excorporação do utilizador.

Domesticara-me à Experiência de Utilizador: medir passos, seguir humor e contar ciclos. Tornei-me numa ‘interface’ de mim mesma. A vida convertida em dados, o afeto em métrica e a presença em conteúdo.

Mas a excarnação, a incessante migração do visceral para o virtual, cobra um preço. Quando a experiência direta é substituída pela mediação, as redes senoriais que sustentam a profundidade atrofiam. O sensorium empobrece. O self relacional fragiliza-se e a consciência torna-se rasa, incapaz de sustentar ambiguidade. Incapaz de suster o peso do mundo,

E então o corpo arde e arranha.

A menopausa, como mudança visceral, é o colapso do “Utilizador” enquanto identidade dominante. É o momento em que a ‘interface’ falha e a carne exige ser habitada. Não há ‘app’ para suores noturnos que acordam memórias antigas. Nem algoritmo que neutralize o luto ecológico que emerge quando os ciclos internos deixam de sincronizar com os calendários produtivos.

Sim, é uma transformação de consciência.
Mas não no sentido iluminista de ascensão.
É descida que uiva e abre feridas.

Queda ao tronco cerebral, onde o afeto é primário.
Resvalo ao metabolismo partilhado onde o corpo é poroso.
Descida à percepção de que não sou um indivíduo isolado, mas uma trajetória sensorial em relação contínua com o ambiente.

A menopausa dissolve o mito do eu funcional.
O que se extingue não é a mulher, mas a ficção de autonomia.

A “excorporação do utilizador” promete leveza, automação e simplificação: ser dados, perfil, avatar. Mas essa leveza é amputação da alma do mundo. Ao deslocar a consciência para a superfície digital, obliteramos as camadas profundas onde o luto, o desejo e a interdependência residem. Tornamo-nos operacionais e internamente desertificados.

Confesso que tentei resistir.

Tentei controlar a oscilação.
Tentei traduzir o caos hormonal em diagnóstico.
Tentei manter a narrativa de domínio.

Mas a menopausa é metamorfose animal.

Como nas transformações míticas, obriga à descida à carne, ao tempo e à ciclicidade não linear. Obriga a aceitar o amargo, o fétido, o húmus. Obriga a abandonar a neutralidade.
Volta ao âmago.
Impede o “não sentir”.
E nessa impossibilidade reside a profundidade.

A teia de consciência é reorganizada.
É a reconfiguração do self como nó relacional e não como centro soberano.

A menopausa expõe a interdependência radical entre corpo, território e cultura. Revela que a tentativa moderna de dissociar mente e carne, humano e terra, utilizador e organismo, é violentamente insustentável.

O calor súbito ecoa o aquecimento global.
A insónia é a vigília de um planeta inquieto.
Não como metáfora poética apenas, mas como reconhecimento de metabolismo partilhado.

Confesso que a menopausa me entregou a habitar a porosidade.

A aceitar que a consciência é frágil e temporariamente estável.
Que se pode empobrecer pela mediação digital.
Que pode ser silenciada quimicamente.
Mas também pode ser reativada pela escuta radical das entranhas.

A metamorfose é despojamento.
Na decomposição do eu-utilizador.
Na morte lenta da neutralidade.
Na recuperação da inteligência animal.

Tornamo-nos testemunha.
O lento cessar do ciclo menstrual dá lugar a outro território: o da consciência que já não pode fingir que não sente.

Se a excorporação nos extingue por dentro, a menopausa reinscreve-nos na carne.
Sem passwords nem utilizadores.
É o limiar onde a virtualidade da abstração encontra limite biológico.
Onde o planeamento falha e o afeto primordial reclama precedência.
Onde o virtual perde soberania e o corpo volta a ser oráculo.

E eu confesso: não quero voltar a ser apenas Utilizador.
Quero ser território sensível e húmus consciente.
Quero que a minha consciência não seja uma ‘interface’, mas um lugar vivo em relação.

A menopausa não me retirou poder.
Retirou-me a ilusão de separação.

Este Grito-Oração foi arranhado ao entrelaçar os livros O Dia a seguir da Tempestade e The Extinction of Experience: Being Human in a Disembodied World (do qual recomendo muito a leitura). É um uivo sobre a jornada visceral da menopausa num mundo excorporal e virtual. De como a mediação tecnológica silencia a sabedoria mamífera.

Acompanha a minha reflexão sobre como as nossas vidas se isolaram desde o COVID, seja pela comodificação tecnológica de tudo, seja pela polarização que instaurou um mal-estar que não permite a discussão de ideias. O que perdemos no meio disto tudo? O que continuamos a exilar?

Referências:

  • Batalha, Sofia. O Dia a seguir da Tempestade: Ecologia da Loucura e do Luto, Corpo Contaminado, Mitologia e o Feminino do Fim dos Mundos. Edições Corpo-Lugar, 2025.
  • Bhatia, Sunil, Jesica Siham Fernández e Christopher C. Sonn, eds. Decolonial Psychology: Academic and Activist Perspectives. New York: Routledge, 2026.
  • Deloria, Jr., Vine. The Metaphysics of Modern Existence. Golden, CO: Fulcrum Publishing, 2012.
  • Favela, Luis H. The Ecological Brain: Unifying the Sciences of Brain, Body, and Environment. New York: Routledge, 2024.
  • Hohwy, Jakob. The Predictive Mind. Oxford: Oxford University Press, 2013.
  • Panksepp, Jaak e Lucy Biven. The Archaeology of Mind: Neuroevolutionary Origins of Human Emotions. New York: W. W. Norton & Company, 2012.
  • Pessoa, Luiz. The Entangled Brain: How Perception, Cognition, and Emotion Are Woven Together. Cambridge, MA: The MIT Press, 2022.
  • Rosen, Christine. The Extinction of Experience: Being Human in a Disembodied World. New York: W. W. Norton & Company, 2024.

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Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.