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E se a Consciência Arranha?
Tenho tido muitas saudades do Cedro-Catedral. A sua morte ainda me dói e hoje acordei a chorar. Trago a memória o toque da sua casca, das suas sementes na minha mão e da madeira perfumada, para este pequeno ensaio.
Há algo na modernidade que se perdeu na ponta dos dedos. Os nossos ecrãs são lisos, os móveis polidos; as nossas superfícies são tratadas para não ferir, não resistir, não surpreender.
Este polimento não é só cultural, ao acarretar extração mineral, massivas cadeias de abastecimento e violentíssimo trabalho invisível. Há quem pague o custo de polir o mundo, sendo forçado a tocar superfícies cortantes para que outros tenham superfícies lisas e se possam anestesiar. Há territórios sistematicamente devastados para manter a lisura. Eu também sou cúmplice, pois escrevo isto num teclado liso, produzido por cadeias extractivas que não toco enquanto falo da perda da textura.
A partir desta esterilização táctil quero tocar diferentes formas de consciência que nos atravessam. Em aulas, dou muitas vezes o exemplo da extinção da sabedoria tátil, de como os estudantes de cirurgia são postos a ter experiências fundacionais de motricidade fina e texturas, ao chegarem aos 20 anos sem nunca terem tocado em nada que não seja liso e seguro. Quero ampliar esta iliteracia para a extinção de outros tipos de consciência, mais vivos, emergentes e imprevisíveis.
Vamos tocar em texturas diferentes, entre as Teorias Modernas da Consciência (TMC) e a metafísica, tal como Vine Deloria Jr. a descreve no último livro que nos deixou. Ambas rejeitam o dualismo mente/corpo e o indivíduo isolado como unidade última do real. Mas divergem no modo como tocam o mundo.
Pensamos esta divergência como dois modos de tocar numa árvore, na memória do Cedro-Catedral.
*
A consciência como superfície polida: o modelo preditivo
O processamento preditivo descreve a mente como um mecanismo que minimiza o erro. A realidade que experimentamos é considerada uma espécie de “realidade virtual” construída para reduzir a incerteza. A consciência aqui emerge como incerteza sentida, um sinal afetivo que orienta o organismo na regulação do seu acoplamento ao mundo.
Aqui, o toque é consequência, pois não tocamos na árvore, ao anteciparmos a textura. A pele extingue-se como órgão sensorial e torna-se modelo estatístico. A rugosidade transforma-se em probabilidade. Aqui, a modernidade não é apenas uma escolha conceptual, mas uma profunda reorganização sensorial. A consciência é tratada como uma superfície interna onde o mundo é alisado para ser gerível.
A modernidade inteira ecoa este movimento ao transformar a floresta em mapa, o corpo em dados ou o afeto em variável.
No entanto, há uma subversão interna nas próprias TMC. Pois afirmam a primazia do afeto, na ideia de que a consciência é essencialmente sentir, ao ter surgido nos sistemas emocionais ancestrais. Estas Teorias Modernas da Consciência reintroduzem a textura por esta fissura. Trazem o tronco cerebral, antigo e bem áspero, com os seus sistemas vivos de PROCURA, MEDO e RAIVA. No meio da teoria ainda se escuta um murmúrio de que a consciência não começa no neocórtex, mas na vibração crua do corpo e na sua fluente interação com o mundo.
*
A consciência como árvore inteira: a metafísica relacional
Ao ler Deloria, surge-me outra camada, é que o problema do Ocidente não é apenas teórico, mas é táctil e háptico. Criou-se uma “visão dividida” da realidade, que separa sujeito e objeto, mente e matéria. Ora, a consequência desta divisão é muito mais que filosófica, sendo profundamente sensorial. Deixámos de tocar o mundo como presença viva.
Nas cosmologias indígenas evocadas por Deloria, a realidade é apreendida experiencialmente, como potente força intrínseca das coisas. Não se trata de modelar o mundo como visão que o narra de longe, mas de entrar em relação com ele.
Aqui, tocar a árvore não é recolher dados sobre a sua textura. Mas sentir que a árvore também nos toca de volta. Lembrando que o seu toque pode vir com doença, ou seca de cinza e fogo. O toque da árvore não é salvação ou o triunfo inocente do encantamento do mundo, mas é baixar à terra viva, onde também se movem o conflito, a hierarquia e a exclusão. Porque nem toda a relação significa harmonia, pois ser tocado pode significar ser descentrado, destabilizado, até humilhado. Bem, a árvore até pode negar-se a tocar-nos de volta.
Nesta entrega de volta ao mundo, a consciência deixa de ser uma simulação interna e passa a participar e a ser o próprio território vivo e relacional.
Se o modelo preditivo descreve o self como trajetória causal, construção social e modelo dinâmico, a metafísica relacional insiste que essa trajetória não pode ser abstraída do ambiente. O self não é uma entidade, mas um entrelaçamento. Em processo e procissão. No mundo vivo, abundam texturas e nem todas são seguras, muito menos lisas. Rugosas, cortantes e ásperas. Mas, aqui nas terras lisas, temos vindo a perder a possibilidade de sermos feridos pelo mundo por estarmos realmente em contacto com ele.
*
Diferentes formas de consciência como diferentes texturas
Podemos, então, esboçar três texturas de consciência. Coexistem em tensão permanente, porque a dimensão relacional também pode ser usada para dominação e o afeto primário também pode ser veículo de violência. Tal como o modelo preditivo, é o que permite a sobrevivência, pois o cérebro minimiza o erro para não morrer. Ou seja, a predição não é apenas domínio, mas também tentativa e cuidado para não repetir traumas. Não pretendo trazer um trajecto limpo, linear e, muito menos, de progresso ascensional da consciência. Trago um território em fricção tectónica vibrante:
- Consciência afetiva primária — a vibração crua, anterior ao conceito. O medo que aperta o estômago antes de qualquer explicação. Aqui, a textura é irregular, ancestral. É a casca da árvore.
- Consciência preditiva-modeladora — a camada que organiza, antecipa, constrói narrativas. É a lixa que suaviza a madeira para a tornar forma domesticada e funcional ao humano.
- Consciência relacional-metafísica — a compreensão de que não há madeira “lá fora” separada, mas sempre em relação com a mão que a toca. É o reconhecimento de que o toque é co-produzido.
A modernidade especializou-se na segunda camada. Aprimorámos a lixa e perdemos a farpa, com custos imensos de anestesia para uns e feridas fundas, sempre a sangrar, para outros. Mas, paradoxalmente, as TMC abrem uma fenda ao reconhecerem que o cérebro é religado pela cultura e que o self é construção, abrindo uma base neurocientífica para uma crítica relacional e ecológica, mostrando que a superfície lisa também é produzida historicamente.
Se a consciência é moldada pela cultura, então a perda de sabedoria táctil não é destino, e sim hábito, vício de adormecimento (e exportação da violência e do custo da comodificação). Sabendo que ainda há quem seja sangrado quando a casca rasga.
*
Recuperar a possibilidade de sermos arranhados
Tocar uma árvore real implica risco, a casca pode rasgar a pele, pode haver seiva pegajosa, insetos escondidos, irregularidades. Pode raspar, esfolar, arder. A modernidade tanto expõe como nos anestesia desse risco. Criou ambientes onde a consciência funciona sobretudo como gestão de erro e não como abertura à alteridade, surpresa ou espontaneidade. Claro que o corte não é só pedagógico ou ontológico. Cortes reais sangram e morrem, e há corpos reais que nunca tiveram anestesia e que não precisam de se “recuperar” da fricção porque nunca a perderam.
A relação com a terra viva co-gesta uma consciência tanto plenamente humana como não-humana, e exige a reabilitação da fricção (para quem a perdeu nos reflexos e lisuras da modernidade).
Isso significa re-encarnar o modelo preditivo. Porque o erro de previsão não é apenas algo a minimizar; é a experiência de que o mundo sempre excede e se derrama além de qualquer modelo. É o momento em que a árvore não corresponde à imagem que tínhamos dela, e aqui a textura regressa. Surpreendente e viva!
*
Coser com as duas mãos
Talvez possamos experimentar a integração entre mecanismos objetivos e experiências subjetivas, entre a mão que mede e a mão que sente. A lisura do teclado e a rugosidade da casca de árvore. Não é preciso uniformizar ou convergir, que fiquem assim, bem contrastantes e paradoxais.
Coser estas texturas de consciência não é escolher entre ciência e cosmologia indígena. É permitir que a ciência reconheça a sua própria condição táctil, pois o conhecimento é sempre contacto. Porque a perda de sabedoria táctil da modernidade não é apenas perda sensorial; é perda ontológica.
Ao alisarmos o mundo, alisámos também o self. Tornámo-nos mapas-sem-corpo de nós mesmos.
Recuperar a rugosidade não é regressar ao passado. É recuperar literacia do mundo, aceitar que a consciência é sempre um encontro onde algo pode falhar, arranhar, surpreender. É aqui, neste encontro efémero e intenso, que a consciência, incorporada de corpo e lugar, sempre múltipla e emergente, reencontra a sua espessura vibrante.
A árvore já não continua aqui. O que continua é a possibilidade de sermos tocados pela sua ausência.
*
Referências
- Deloria Jr., Vine. The Metaphysics of Modern Existence. Golden, CO: Fulcrum Publishing, 2012. (Obra originalmente publicada em 1979 pela Harper & Row).
- Barrett, Lisa Feldman. How Emotions Are Made: The Secret Life of the Brain. New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2017.
- Favela, Luis H. The Ecological Brain: Unifying the Sciences of Brain, Body, and Environment. New York: Routledge, 2024.
- Hohwy, Jakob. The Predictive Mind. Oxford: Oxford University Press, 2013.
- Panksepp, Jaak, e Lucy Biven. The Archaeology of Mind: Neuroevolutionary Origins of Human Emotions. New York: W. W. Norton & Company, 2012.
- Pessoa, Luiz. The Entangled Brain: How Perception, Cognition, and Emotion Are Woven Together. Cambridge, MA: The MIT Press, 2022.
- Solms, Mark. The Hidden Spring: A Journey to the Source of Consciousness. New York: W. W. Norton & Company, 2021.

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