Debaixo da Barriga Suave das Infra_Estruturas

O Chão ruge, rasgado, estrangulado, esmagado, sufocado.

 

Ao longo de milénios, nós, no Ocidente, abandonámos os protocolos devocionais do Submundo em favor das infra-estruturas e comodidades da civilização. Cortámos as mudanças orgânicas, ecológicas e sazonais da Terra, construindo vastas infra-estruturas fixas. Exilámos a psique e o corpo do território e dos Ancestrais, tornando-nos violentamente isolados.

A segurança sobre a impermanência.

Infra-estruturas: Os  imobilizados altos muros construídos para manter cataclismos, catástrofes e a natureza selvagem do lado de fora.

Proteção contra a transitoriedade.

Infra_estruturas: Rejeitar a invocação do Solo, construir fundações profundas contornando as Catabases sagradas, ignorar as peregrinações sazonais do Submundo e esquecer os protocolos dos Antepassados. Negligenciar a profunda sabedoria ancestral. Esquecer.

Defesa linear imediata em vez da vasta e complexa ciclicidade.

Infra refere-se a “abaixo, por baixo”, nomeando também algo inferior, relacionado com Infernus “baixo, debaixo”; estrutura vem da palavra latina structura, “um encaixe, ajuste; um edifício”; sobre o sentido de “arranjo, ordem”. As estruturas modernas conquistaram o inferno, sufocando as profundezas sob o peso das ordenadas alturas transcendentes. Numa ilusão hierárquica, somos levados a acreditar que as Infra_estruturas dominantes mantêm tudo unido, esquecendo o Chão que ancora e sustenta as suas fundações.

O Solo ronca, rasgado, estrangulado, esmagado, sufocado.

Infra_estruturas: Estendendo-se e acumulando muros altos e fronteiras fixas, estabelecendo passagens e portões fechados. Montando rigidez e conquistando os velhos Deuses Ctónicos e Metamórficos.

Bastiões de autoridade ordenada louvam o deus do céu, mas negligenciam os deuses do solo.

Secando pântanos, cavando poços, esmagando colinas, extraindo quimicamente as colheitas e os frutos, minerando, perfurando e rasgando o solo duro, devastando o solo macio, moendo pedras e profanando ossos. Escravizando e silenciando o solo. Mas a promessa de manter a incerteza e a instabilidade à distância não é cumprida, pois as Infra_estruturas não impedem que o Chão trema ou que as paredes se desmoronem. As fundações apodrecem e os impérios caem. Na porosa Infra dimensão, os Deuses Ctónicos decompõem e corroem, pois a nutrição da vida provém da lenta digestão da morte.

Vivendo num contexto tão árido, as intergeracionais psiques enclausuradas acreditam que estão separadas de tudo o que está fora das paredes das Infra_estruturas, vivendo em prédios de apartamentos altos, ansiando por voltar a ouvir o Chão. As psiques catatónicas estão imobilizadas e anseiam por se esticar para fora das barricadas construídas. Esta prisão, que nos mantém aprisionados nos confortos e mercadorias da civilização e suas Infra-estruturas, é um catabolismo, um metabolismo destrutivo, que precisa de uma catálise, uma dissolução e dissolver.

Um curvar-se, uma rendição.

Um olhar para baixo e tocar o ventre suave.

Aqui não há paredes.

Apenas o ventre macio no chão suave.

Aqui mesmo, onde os velhos Deuses ainda vivem.

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* A etimologia do prefixo Cata (Kata) vem de baixo, debaixo, para baixo.

[toda a etimologia foi verificada aqui: https://www.etymonline.com/]

🌳 Estes vários livros são como vários territórios, lugares diferentes de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.