Introdução e Contexto

Trago-vos uma incompleta Cartografia dos Arquétipos na Ecopsicologia, que se propõe a mapear alguns comportamentos, narrativas e posicionamentos, vistos como normais e mesmo desejáveis, mas que condicionam e limitam as práticas e teorias de Ecopsicologia. Comportamentos que são prejudiciais, que se baseiam nas perspectivas eurocêntricas modernas.

Esta cartografia foi directamente adaptada do artigo de Anna Denardin, Christina Sayson, Luiza Oliveira e Samantha Suppiah, “The Sustainability Industry’s In-built Asshole Culture,” tendo sido originalmente criada para o curso de Possible Futures, Introdução à Sustentabilidade Decolonial. Ao encontrar este trabalho senti muita ressonância com as várias máscaras presentes na prática da Ecopsicologia, daí que o tenha traduzido e adaptado. Segundo as autoras, os comportamentos nocivos listados foram inspirados nos vídeos de Heather Luna, no trabalho de Tema Okun sobre a cultura da supremacia branca e, claro, na experiência pessoal e colectiva da equipa Possible Futures. Nesta adaptação adicionei, no final do artigo, as questões e referências trazidas pelo “Rude Diagnostic Exercise” do GTDF, numa tradução e adaptação experimental que elaborei para mini-livro de Siduri, sobre a personagem de Gilgamesh como representante arquetípico da psique ocidental.

Esta Cartografia dos Arquétipos na Ecopsicologia está assente na observação dos padrões de limitação e fragilidade da psique eurocêntrica moderna; psique que encontra muita dificuldade em maturar para além do individualismo antropocêntrico, justificando-se no topo da hierarquia e sistemas de conhecimento ocidental, mas fechados nas suas narrativas da “verdade” ou do “normal.”

Relativamente a estes padrões nocivos, Joan Tronto traz a ideia de irresponsabilidade privilegiada (cumplicidade e não-inocência) que, somada às epistemologias da ignorância (um exame da complexidade na produção e manutenção da ignorância), dá pouca oportunidade e espaço à psique eurocêntrica para observar e se responsabilizar por toda a violência e consequências brutais do conforto da Modernidade. É mais fácil dissociar e seguir o brilho e as ilusões do excepcionalismo, do que relacionar afectiva e responsavelmente.

A Cartografia dos Arquétipos na Ecopsicologia é uma proposta e convite à maturação responsável e carinho intergeracional e mais-que-humano, e não é sobre o nosso valor, ou (de)feitos individuais —é exactamente a mudança de pele do individual, abrindo ao colectivo, com o inevitável Luto sobre as nossas confortáveis ilusões individualistas. Uma das questões elaborada pelo GTDF com Vanessa Andreotti, que ancora esta reflexão é: “Como o reconhecimento destes padrões, e as dificuldades de os compostar, podem servir de alavanca para iniciar uma forma de sobriedade emocional, maturidade relacional, discernimento intelectual e responsabilidade intergeracional?”

Por outro lado, as autoras, Anna Denardin, Christina Sayson, Luiza Oliveira e Samantha Suppiah, dizem: “Conhecermo-nos profundamente significa que reconhecemos os padrões insidiosos de dano dentro de nós próprios e dos outros, e procuramos desenvolver o hábito de nos apresentarmos de forma mais adequada e eficaz a qualquer que seja o trabalho. Significa que pedimos respeitosamente ajuda quando necessário, admitimos humildemente quando não sabemos o que estamos a fazer e reivindicamos graciosamente as nossas capacidades quando sabemos.

Então, e seguindo a proposta do artigo original, a Cartografia dos Arquétipos na Ecopsicologia é também uma bússola, que nos ajuda a detectar padrões nocivos de máscaras que usamos sem sequer nos apercebermos. A tomada de consciência destes arquétipos que habitam em nós convida e permite o acolhimento e a possibilidade de decadência das infraestruturas que oprimem a nossa imaginação e nos mantêm encarcerados numa cultura imatura, plena de ilusões auto-congradulatórias de excepcionalismo e escapismo.

Este é um exercício sempre incompleto, que não serve para atribuir culpa ou envergonhar, pois nenhum de nós está fora destas máscaras. Vejo-o como um convite à identificação de padrões culturais prejudiciais dentro de nós, que reproduzem sistemas de dissociação e opressivos, mesmo quando temos as melhores intenções do mundo. 

Desde a Antiguidade que as máscaras são usadas em processos sagrados de conexão e transmutação, mas também de proteção e evocação, mas hoje em dia são vistas como algo que contém ou esconde. No entanto, as máscaras são também materializações de arquétipos, os assumidos e os invisíveis (as máscaras que usamos sem saber.) Esta cartografia é sobre estas últimas, as máscaras validadas e desejadas no âmbito da Ecopsicologia, pela cultura que nos enforma, mas não necessariamente assumidas. Representam a sombra cultural.

É importante clarificar que o que pretendo trazer são várias formas de como a nossa Psique Ecológica é limitada nas possibilidades de encontro e co-participação, na experiência diária de crítica, sonho, decisão e reflexão.
Aqui trago a contra-narrativa cultural e decolonial, sustentada pelo braço critico da Ecopsicologia proposto por Andy Fisher e Jeanine M. Canty, levantando véus e abrindo espaço à passagem a outras possibilidades de relação e de
“ser humano.”

Cada uma das seis máscaras descritas faz um bypass e evita abraçar a Ecopsicologia que, ainda que esteja assente em valiosos ensinamentos indígenas (na maioria não reconhecidos e mesmo totalmente invalidados) é um produto da modernidade e fundamentado pela mente eurocêntrica. São várias as máscaras que negam, de diferentes formas, que o “bem-estar humano não é a medida de todas as coisas,” assim como a real cumplicidade do capitalismo, (andro)antropocentrismo e individualismo no imenso desafio de abertura à relação recíproca com o mais-que-humano. São várias as máscaras que, pelo seu narcisismo intrínseco e cultural, negam a capacidade de resposta do Outro, ou a subjectividade multidirecional da nossa presença biológica e eco-sistémica. Negligenciando a responsabilidade e a necessária maturação da psique ocidental moderna.

Cartografia dos Arquétipos na Ecopsicologia

Experimentar as Seis Máscaras

As seis máscaras arquetípicas falam de vários posicionamentos (contextos, acções e crenças) relativamente à prática ecopsicológica: como profissional e recipiente.

Ao ler as descrições de cada máscara, considere até que ponto se alinha ou identifica com os comportamentos apresentados. É possível ver facetas de si próprio em várias máscaras. As autoras do colectivo Possible Futures referem: “Se se sentir desconfortável, ofendido ou tiver uma reação forte a qualquer um dos arquétipos, isso pode ser um alerta que se pode identificar com um padrão de comportamento num arquétipo. Preste atenção, observe as suas próprias reacções à descrição destas personagens e procure investigar mais profundamente.”

Máscara 1 – Isa

A Isa gere o seu próprio negócio de mindfulness e sentiu que fazia sentido trazer a Ecopsicologia para a sua prática. Organiza retiros e viaja pelo mundo à procura de locais sagrados para meditar e gosta de fazer caminhadas descalças na natureza, abraçar e falar com árvores e também é vegan. Isa está convencida de que sente uma profunda interconexão com a natureza e o cosmos, mas ignora com firmeza e teimosia o emaranhamento com as partes feias da realidade natural. Evita falar, pensar, e muito menos reconhecer a injustiça e colonização. Diz que esse tipo de conversas traz más vibrações e essa energia nos impede de experimentar a unidade da natureza em conjunto. Acredita piamente na frase “somos um”!

Alguns padrões prejudiciais que a Isa apresenta são:

CEGUEIRA AO PRIVILÉGIO: Isa torna invisível o trabalho humano e não-humano necessário para garantir o conforto de uma pessoa. Ela concentra-se em subir de estatuto, poder e números. Isto leva a que haja pouca ou nenhuma capacidade de considerar o custo sistémico de aumentar o número de seguidores nos domínios social, emocional, ambiental, corporal, espiritual e financeiro.

REIVINDICAÇÃO DE INOCÊNCIA: Isa posiciona-se fora da cumplicidade na violência, dizendo que os sistemas de violência não são culpa dela. Ela desculpa-se reiterando o seu compromisso verbal com a ideologia não-violenta, que é uma cooptação dos movimentos revolucionários do Sul Global para o seu próprio direito ao conforto.

PERTURBAÇÃO ESPIRITUAL: Isa evita, consciente ou inconscientemente, reconhecer os seus próprios comportamentos problemáticos, recorrendo à apropriação de conceitos espirituais para contornar o verdadeiro trabalho de se tornar uma pessoa melhor. O contornar espiritual é uma forma de negação, feita para se livrar da responsabilidade e para reivindicar uma posição moral elevada, um atalho usado para reforçar um autorretrato impreciso baseado no egocentrismo.

Máscara 2 – José

O José é o diretor-executivo de uma empresa que se diz sustentável. Como team-building o José achou boa ideia trazer a Ecopsicologia para os seus colaboradores, sob a ideia que “temos de ir para a natureza para nos sentirmos bem.” Optou por organizar um evento de competição desportiva na natureza. Tem um longo percurso profissional e é doutorado em economia empresarial em Harvard. Considera-se muito inteligente e usa o mito da “meritocracia” como desculpa para ser um idiota. Muitas vezes, fica com os louros das ideias dos outros e não reconhece a sua tendência para se aproveitar das pessoas para seu benefício pessoal.

Alguns padrões prejudiciais que o José apresenta são:

PROCURA DE RECONHECIMENTO: O José procura validação certificável e afirmação da sua grandiosidade. Ele tenta parecer bem e ser visto como parte da “boa equipa”. Tem um profundo desejo de reconhecimento individual e valoriza mais a competição do que a cooperação. Parte do princípio de que o objetivo é sempre ser/fazer/obter mais. A sua atenção está, portanto, centrada naquilo que é “objetivamente” mensurável –por exemplo, na forma como alguém está a conseguir ser, fazer ou obter mais. Para ele, ser, fazer ou obter mais é mais valioso do que a qualidade das suas relações com os outros seres vivos. José valoriza aqueles que “progrediram” em detrimento daqueles que “não progrediram” –onde o progresso é medido em graus, posições, notas, dinheiro, poder, status ou pertences materiais. Esta forma de progresso apaga a experiência vivida e os saberes que são invisibilizados, tais como cuidar, limpar, alimentar, nutrir, cuidar de, educar e apoiar, entre outros.

ACUMULAÇÃO DE PODER: José parte do princípio de que os outros existem para o servir, em resultado da sua posição socioeconómica meritocrática, e instrumentaliza as relações para se sentir melhor. Ele vê o poder como algo limitado, que não há muito poder para ser distribuído. O núcleo hiper-individualista da acumulação de poder de José reside na crença de que, se algo vai ser feito “corretamente”, ele é o único que o pode fazer –“Só eu posso determinar a forma correcta, e tenho o direito e a qualificação para o fazer”, declara a máscara que é José. A sua versão de “a forma correcta” não tem em conta os mais afectados por aquilo que define como a forma correcta, uma vez que esses seres vivos detêm muito pouco poder na sua visão meritocrática do mundo. O José tem pouca ou nenhuma capacidade de delegar trabalho a outros e tem tendência para microgerir. A acumulação de poder de José baseia-se num medo profundo de perder o controlo, um medo que só é atenuado pela subserviência obediente dos que ocupam posições socioeconómicas inferiores. A relação, escuta e presença com a gama de seres inferiores, humanos e mais-que-humanos, não é possível de acontecer.

EGO INFLAMADO: José valoriza sobretudo os seus próprios sentimentos, experiências e perspectivas, e não tem capacidade para sentir empatia pelos outros. Tem pouca experiência de trabalho em equipa e não se sente à vontade para o fazer. Não reconhece a genialidade ou a criatividade dos outros membros da sua equipa e ignora sistematicamente o facto de a totalidade dos seus conhecimentos ser, na verdade, fruto de muitos outros.

Máscara 3 – Luísa

A Luísa lidera uma equipa de sustentabilidade de uma grande empresa multinacional. A sua eco-ansiedade levou-a a procurar a Ecopsicologia para se sentir melhor, mas por ocupar este cargo, considera que está isenta de ser uma má pessoa, devido ao seu “impacto”. Normalmente, ocupa o tempo coletivo das reuniões para falar sobre as suas próprias experiências e carreira, e fá-lo para afirmar a sua importância, em parte para validar a sua posição de liderança e poder, mas sobretudo para garantir que o coletivo compreende que não a deve desafiar. Fala frequentemente de liderança regenerativa, mas não consegue cultivar relações saudáveis com as suas próprias equipas, uma vez que é incapaz de valorizar o tempo, os esforços ou as perspectivas dos outros.

Alguns padrões prejudiciais que a Luísa apresenta são:

SALVADORISMO: Luísa acredita que está qualificada e que tem o dever de consertar o mundo, salvando-o. Na sua determinação em salvar urgentemente o nosso planeta moribundo, ela ignora e apaga a cultura, a sabedoria, o génio e a alegria das pessoas e das comunidades que estão a ser “salvas” –como danos colaterais inevitáveis. Entretanto, a terra, a mão de obra, a arquitetura, a música, a comida e outros bens materiais dessas pessoas e comunidades são confiscados e mercantilizados em benefício da sua empresa. Luísa considera-se uma autoridade importante com o mandato de “melhorar” o que está “estragado”, mas não reconhece nem vê o seu próprio papel destrutivo.

PATERNALISMO: No que diz respeito a Luísa, ela está acima da crítica e fora da cumplicidade. Vê-se a si própria como a pessoa que dirige e determina o que é ou pode ser a mudança –e está constantemente a divagar sobre a sua liderança, de como é uma Change-maker e a Teoria da Mudança, procurando a validação e a conformidade daqueles com quem a mostra, num esforço para os converter em respeitadores da sua autoridade, uma vez que ela e só ela detém esse entendimento. Luísa assume que o seu direito de definir padrões e abordagens faz parte da descrição das suas funções. Isto também lhe dá o direito óbvio de tomar decisões a favor e contra os que não têm poder, e de as apresentar como se fossem beneficiar também aqueles que a sua empresa afecta negativamente. Luísa não considera importante efetuar pesquisas com base em entrevistas junto dessas comunidades, uma vez que estas são consideradas não qualificadas do ponto de vista intelectual, emocional, espiritual e/ou físico.

VITIMIZAÇÃO: Luísa sente-se à vontade para reivindicar o espaço coletivo para procurar validação e felicitações pessoais. O tempo das outras pessoas é simplesmente menos importante. Está bem treinada na utilização da vergonha, da culpa e da auto-justificação para manipular a tomada de decisões –e, de facto, considera que esta é a sua principal competência interpessoal que a ajudou a subir na hierarquia, como mulher BIPOC numa arena dominada por homens.

Máscara 4 – Daniel

O Daniel é a pessoa mais lógica, razoável e metódica que alguma vez conhecerá. Ele passa horas, ou mesmo dias, a tomar qualquer decisão e, na verdade, tem um modelo de prós e contras para comprar diferentes bolos no seu café local. Ele precisa sempre de ter razão, mesmo em ambientes sociais informais. Começar uma conversa com ele e mencionar algo que vai contra os seus pressupostos será contestado com: “O seu argumento não bate certo. Deixa-me só fazer de advogado do diabo…”. Ele questionará a sua credibilidade, exigirá que cite as fontes e é conhecido por pedir até o seu currículo. O Daniel exige da Ecopsicologia métodos neutros, garantidos e mensuráveis, assim como conclusões fiáveis e resolutivas, pois sem isto não tem qualquer utilidade. Na verdade, o próprio conceito apenas desvia as atenções de coisas mais importantes como os avanços tecnológicos.

Alguns padrões prejudiciais que o Daniel apresenta são:

ALIMENTADO PELA CERTEZA: Para poder funcionar, Daniel precisa de resultados fixos, simples, garantidos e previsíveis para problemas complexos. Ele posiciona ou apresenta opções ou questões como binários ou/ou, com pouca ou nenhuma noção das possibilidades de ambos/e. Isto leva-o a procurar constantemente simplificar coisas complexas, reduzindo-as a três aspectos claramente separáveis que podem ser claramente descritos numa linguagem com a qual se sente mais confortável. Este reducionismo é uma estratégia utilizada por aqueles que têm uma agenda ou um objetivo claro, para pressionar aqueles que ainda estão a decidir entre A ou B, sem reconhecerem a necessidade de tempo para uma reflexão profunda e criatividade não estruturada para encontrarem mais opções.

EFICIÊNCIA: O Daniel orgulha-se de ser capaz de oferecer soluções rápidas, porque, para ele, a vontade de “fazer a diferença” é mais importante do que abordar efetivamente as causas profundas dos problemas. Quase não dedica tempo, energia ou investimento a aprender com os seus próprios erros, preferindo concentrar-se em ultrapassar o embaraço o mais rapidamente possível e avançar para a tarefa ou projeto seguinte. Esta caraterística reforça a ideia de que somos governados por cronogramas, prazos e uma necessidade constante de fazer as coisas rapidamente. Esta forma de organizar as actividades, centrada no tempo, baseia-se muitas vezes em horários arbitrários que pouco têm a ver com a realidade do tempo efetivamente necessário, sobretudo em contextos orgânicos e dinâmicos, como as relações com os outros. Isto torna mais difícil para aqueles que interagem com Daniel distinguir o que é realmente urgente do que parece urgente. Para Daniel, o stress do tempo não é visto como algo pouco saudável –ele vê-o como um fator de motivação para produzir resultados. Ao fim de algum tempo, tudo assume o mesmo sentido de urgência para aqueles de nós que usam a máscara de Daniel, levando ao esgotamento e exaustão mental, física, intelectual e espiritual.

OBJECTIVIDADE: Daniel acredita que as crenças ou sentimentos pessoais não influenciam as suas perspectivas. Vê as emoções como inerentemente destrutivas e irracionais, e acredita que não devem desempenhar um papel na tomada de decisões ou ser autorizadas a assumir o foco nos processos de grupo. Daniel é impaciente com qualquer pensamento que não considere “lógico” ou “racional”, especialmente se não reforçar as estruturas de poder existentes. Fica frustrado quando as coisas não são feitas de forma linear e ignora, invalida ou envergonha aqueles que pensam ou trabalham de outras formas. Se não estiver num memorando ou num calendário, não existe para Daniel. Se não estiver gramaticalmente correto, não tem valor para o Daniel. Se não for devidamente citado conforme as regras académicas que muitas pessoas não conhecem ou a que não têm acesso, simplesmente não é legítimo para o Daniel. Ele recusa-se, ou é incapaz, de reconhecer a informação partilhada por histórias, do conhecimento incorporado, da intuição e do vasto leque de formas como nós, individual e coletivamente, aprendemos e sabemos.

ASCENSÃO INTELIGENTE: O Daniel precisa de ter razão a todo o custo. Não está aberto a considerar seriamente diferentes perspectivas. Está convencido de que existe uma forma correcta de fazer as coisas e que, assim que as pessoas forem apresentadas à forma correcta, verão a luz, agradecer-lhe-ão e validá-lo-ão, adoptando a sua forma correcta. Daniel confunde frequentemente cometer um erro com ser um erro, fazer mal com estar errado. Quando uma pessoa ou um grupo não concorda com as opiniões de Daniel, então deve haver algo de errado com eles. Daniel é um espertalhão da mesma forma que um missionário só vê valor nas suas próprias crenças sobre o que é bom, e não reconhece valor noutras culturas e comunidades se estas apresentarem contradições à sua forma “correcta” de pensar, ser e viver.

Máscara 5 – Jonas

O Jonas é um crítico nato que se identifica como “desperto”. Adora encontrar defeitos nos outros e problematiza tudo e todos. Sente-se culpado por ser branco e isso paralisa-o. Muitas vezes, conduz as conversas pedindo desculpa pelas atrocidades coloniais dos seus antepassados, para se absolver ou perdoar a si próprio. Adopta uma romantização infantil do conhecimento indígena e apropria-se de conceitos ancestrais para o seu próprio benefício, para parecer “alternativo” e “virtuoso”. Fá-lo com a justificação de que “somos todos indígenas da Terra”. Para ele a Ecopsicologia assenta em usar rituais exóticos de outras culturas, sem reciprocidade ou referências, descontextualizando conhecimento. Apesar disso, delega a sua própria responsabilidade nas partes marginalizadas da sociedade, esperando que elas tenham as respostas para todos os problemas e que façam o trabalho árduo e lhe dêem a forma de liderar a salvação do mundo.

Alguns padrões prejudiciais que o Jonas apresenta são:

CRÍTICA IGNORANTE: Jonas usa a crítica como um meio para afirmar a sua própria inocência e para procurar perdão, validação e influência. Tem uma capacidade extraordinária de culpar toda a gente menos a si próprio, antecipando as acusações com actuações verbais e escondendo ou negando as suas próprias falhas.

IMATURIDADE: Jonas romantiza o modo de ser indígena e rural. Convenceu-se de que eles têm todas as respostas e transferiu para os seus ombros a responsabilidade e o peso de salvar o mundo. Coloca as pessoas em pedestais e espera que elas o tomem sob a sua proteção só porque está à procura do seu perdão e validação.

APROPRIAÇÃO: Jonas consome o conhecimento e a cultura daqueles com quem procura fazer amizade para parecer inteligente, consciente e culto. Encontra frequentemente formas de mencionar a sua relação próxima com amigos com heranças indígenas, ou as suas aprendizagens ao ler livros de revolucionários indígenas e do Sul Global. Ele apropria-se dos seus conceitos para seu próprio benefício pessoal e profissional.

Máscara 6 – Soraia

Soraia é uma jovem aprendiz de Ecopsicologia a estagiar numa grande ONG internacional. Soraia não se deixa enganar pela narrativa da organização de que “fazemos o bem, por isso somos perfeitos”. Ela reconhece alguns dos seus padrões problemáticos, mas não quer causar quaisquer conflitos, especialmente se isso afetar a sua carreira. Acaba por nunca dizer nada, permitindo que esses problemas se acumulem até explodir e ela desistir. A sua prática ecopsicológica é um escape e retiro seguro, onde se esconde.

Alguns padrões prejudiciais que a Soraia apresenta são:

PERMANECER NA SUA ZONA DE CONFORTO: Soraia quer ultrapassar o colonialismo sem desistir de nada, sem se sentir desconfortável e enfrentar dificuldades. Em vez disso, ela faz de bode expiatório àqueles que causam desconforto. Convence-se a si própria e aos seus pares a ficarem satisfeitos com o seu modo de paralisia profissional em nome da sua carreira, que lhe garante um salário confortável para manter um estilo de vida confortável.

DEFENSIVA: Soraia nega que seja parte do problema, uma vez que consegue articular o problema que vê na sua empresa, e, por isso, isenta-se de responsabilidade. Considera que as críticas que lhe são dirigidas são ameaçadoras, inadequadas e simplesmente mal-educadas. Despende muita energia a proteger os seus sentimentos, obrigando os outros a contornar a sua defensividade, em vez de procurar enfrentá-la de frente. No seu pior momento, Soraia convenceu os outros a fazerem este trabalho por ela, apresentando-se como indefesa, mansa e tímida.

EVITAR CONFLITOS: A Soraia deseja uma harmonia estável e consistente, superficial ou não, de preferência por um consenso pré-definido que aplana conflitos, paradoxos e complexidades. É habitualmente silenciosa sobre coisas que podem ter muito significado para muitas pessoas, mas vistas como tópicos politicamente sensíveis. Ela enfatiza e insiste na polidez e no profissionalismo. Estabelece as regras sobre como as ideias, a informação ou as diferenças de opinião devem ser partilhadas para serem ouvidas, exigindo frequentemente que as pessoas se acalmem se estiverem zangadas, apesar de as expressões de raiva conterem muitas vezes informação imediata e útil sobre onde se encontram as mágoas e os danos subjacentes. Soraia equipara levantar questões difíceis a ser desrespeitoso e indelicado, ou mesmo a passar das marcas.

O Metabolismo moderno/ocidental ou os fios invisíveis que mantêm as máscaras colocadas sem sabermos

Como contexto, e para finalizar, segue-se a tradução e adaptação do Exercício de Diagnóstico Rude [do metabolismo moderno/ocidental], do colectivo GTDF.

Trago-o aqui, pois os comportamentos nocivos dos arquétipos acima descritos estão profundamente enredados nestas crenças culturais invisíveis onde estamos todos implicados. São crenças basilares culturais que evitam e dissociam da possibilidade de relação radical (da raiz) e ecológica, essencial à prática da Ecopsicologia.

Este exercício, desenvolvido pelo GTDF, lista as “infraestruturas cognitivas, afectivas e relacionais internas modernas/coloniais.” Ou seja, “a “merda” que herdámos, que coloniza o nosso inconsciente e obstipa a nossa imaginação.” Esta adaptação experimental foi elaborada para a publicação sobre Siduri.

Quero notar que há em nós uma policiada tendência à pureza e a negar, por vezes violentamente, tudo o que nos confronte nos nossos direitos, exigências e consumo. Dói e rejeitamos esse caminho, porque somos boas pessoas e que só queremos desenvolver as soluções práticas, rápidas e indolores, de como “fazer bem e sem errar.” Genericamente, não gostamos e evitamos ao máximo o confronto com as nossas (inevitáveis) contribuições para o problema —já temos tanto a resolver na nossa Vida, porque vamos assumir “culpas maiores das coisas?” Por outro lado, o facto de aceitar estes vícios metabólicos como parte do nosso legado de ser mundo, não anula o que achamos ser o nosso lado “bom,” pois esta reacção binária é, novamente, um sintoma.

A rejeição de aceitar o perpetrador em nós, é um sinal da crescente literalidade e descontextualização, que afecta severamente a nossa capacidade de ‘nuance’, empatia, metáfora, alegoria, emoção e pensamento complexo. Estas intensas reacções e negações, que podem passar por sensações de humilhação, zanga e culpa, são precisamente sintomas do real funcionamento metabólico que estas infraestruturas culturais operam no nosso inconsciente.

Domínio e Triunfo

Genericamente a psique moderna assenta no vício metabólico do Domínio e Triunfo sobre o Outro, como a base e única possibilidade de relação (sempre hierárquica). Claro que esta necessidade de domínio sobre o outro está assente no medo da Morte, numa visão já individualizada e não eco-sistémica. O Outro pode ser traduzido por os humanos sobre a Natureza, de homens sobre as mulheres (e vice-versa). Claro do branco sobre o indígena/negro/pardo (e vice-versa). De cis-hetero sobre trans-queer (e vice-versa).

Da Propriedade

A questão da Propriedade é fundamental na compreensão do mundo do ponto de vista moderno/ocidental, e pode passar pela ilusão de possuir terra, possuir corpos humanos, mas também de outras espécies. Tal como supor que o mérito é uma posse ou o capital. Mas também a posse de orgulho, privilégio, ilusões de superioridade e auto-imagem cuidadosamente elaborada, sempre presentes, mas invisíveis e não assumidos em nós; cheios de ilusões de superioridade e a sua preocupação central é a auto-imagem.

Do Consumo

A idealização do consumo e extractivismo, de algo que nos esteja sempre a preencher e a servir de forma útil e unidireccional, molda todos os recantos do nosso dia-a-dia. Consumimos e tragamos vorazmente tudo. Tal como na exploração do conhecimento, informação e dados. Na demanda incessante da crítica, erudição e credenciais. Mas também na extracção e consumo infindável de experiências, relações, comunidade e intimidade, das artes, política, beleza e mesmo da dor e indignação. Não há reciprocidade nem responsabilidade pelas consequências destas acções extractivistas.

Do Direito 

Gostamos de assumir que os direitos são um dos fundamentos e privilégios da nossa cultura evoluída e civilizada. E claro que são fundamentais, mas direitos individuais sem reciprocidade ou responsabilidade podem ser tóxicos e tirânicos, tal como o direito à total de liberdade de auto-expressão, auto-satisfação, autoridade, autonomia e arbitragem; de assumir destaque moral, de validação e afirmação, da posse e possessividade, da extracção emocional ou exploração relacional, sem qualquer regulação ou responsabilidade maior. 

Das Exigências 

De forma totalmente inconsciente, são semeadas em nós uma série de imaturas exigências, como necessidades urgentes, impostas e reclamadas, de visibilidade e conforto individual, que minam a possibilidade de sustentar um colectivo saudável. Tais como a auto-congratulação, auto-celebração, auto-promoção, experiências de auto-afirmação, auto-atualização, auto-realização; o que conta são as necessidade individuais. A comum exigência de adaptar a realidade ao gosto de cada um, assim como as banais e normalizadas exigências de certeza, conforto e controlo; amortecer, acalmar, entorpecer e mimar; idealizações cheias de prazer; obter atenção, gostos e dopamina; fórmulas fáceis e soluções rápidas.

Direitos de Nascimento

Os Direitos de Nascimento não devem ser confundidos com Direitos Humanos (ou mais-que-humanos). Os primeiros reflectem o direito a coisas pelo facto do seu nascimento; desde legado de estrato social, a promessas raciais ou heranças de purismo étnico. Os direitos de nascimento implicam que há humanos de primeira e segunda categorias. Estes direitos assumidos como naturais vão desde o interesse próprio, egocentrismo, excepcionalismo, arrogância, pureza, à futuridade. Mas também a complacência, escapismo, inocência, impunidade, indulgência, imunidade e indiferença… “aos danos infligidos e ao seu emaranhamento metabólico.”

Considerações finais

Como referem as autoras do artigo original, estes arquétipos devem ser vistos como uma bússola, a ser usada constantemente para mapear as nossas paisagens internas dinâmicas. Identificar um padrão nocivo é o primeiro passo para melhorar, mas a auto-avaliação não significa que se esteja a salvo do reaparecimento destes padrões quando activados.

Considere este exercício como uma forma de aprender a mapear-se a si próprio:

  • Depois de ter experimentado cada uma das máscaras, como vê os seus comportamentos prejudiciais a manifestarem-se em si? Que máscaras está a usar?
  • Como é que se sente ao olhar para aspectos de si próprio de que se pode envergonhar?
  • Qual é o objetivo das respostas defensivas ou reaccionárias e como interagimos com elas em nós próprios?
  • O que é que estes padrões tornam ininteligível e/ou inimaginável?
  • Como é que estes padrões prejudicam as nossas paisagens cognitivas, afectivas e relacionais?
  • Como é que estes padrões afectam o âmbito e a qualidade das nossas relações e da construção de relações?
  • Que infra-estruturas cognitivas e afectivas poderiam fazer-nos transitar para fora destes padrões –não como substituição, mas como uma prática de compostagem que pode transformar merda em solo novo?
  • Seria capaz de criar outra lista-poema que apontasse para possibilidades mais generativas de ser sem reproduzir estes padrões?
  • Como é que o reconhecimento destes padrões e as dificuldades de os compostar podem servir de alavanca para uma iniciação a uma forma de estar assente na sobriedade emocional, na maturidade relacional, no discernimento intelectual e na responsabilidade intergeracional?

Referências

Esta cartografia foi directamente traduzida e adaptada do artigo de Anna Denardin, Christina Sayson, Luiza Oliveira e Samantha Suppiah, “The Sustainability Industry’s In-built Asshole Culture,” tendo sido originalmente criada para o curso de Possible Futures, Introdução à Sustentabilidade Decolonial

Nesta adaptação adicionei, no final do artigo, as questões e referências trazidas pelo “Rude Diagnostic Exercise” do GTDF.

Livros recomendados:

  • Responsibility, Privileged Irresponsibility and Response-ability: Higher Education, Coloniality and Ecological Damage, Vivienne Bozalek and Michalinos Zembylas
  • Hospicing Modernity, Vanessa Andreotti
  • Returning the Self to Nature, Jeanine M. Canty
  • Radical Ecopsychology, Andy Fisher

🌳 Estes vários livros são como vários territórios, lugares diferentes de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.