
TEMPO DE LEITURA – 4 MINUTOS
Se queres sentir a Terra, vais sentir o Luto
E se eu te disser que não falo a partir da tristeza, mas da potência da vida?
Há uma membrana de carência profunda que geralmente impede a relação com o que expresso. Talvez seja uma crosta ou cicatriz. São reações sensíveis e vulneráveis. Ciclicamente, desponta um paradoxo de desconforto e de puxão das entranhas, se por um lado as minhas palavras abrem um lugar de relação visceral, por outro repelem por se “sentir dor”. Uma ausência que não é falha de ninguém. É espessa e opaca esta membrana, a crosta ou cicatriz. Dizem-me que o que escrevo é triste, que, no meu trabalho, toco em coisas que doem e que sentem o luto a transbordar. Incomoda. Entorna. Então evita-se, separa-se e fecha-se o envolvimento.
Estas costumam ser reações defensivas que vêm das emoções saneadas, controladas e bonitas. Mas também de uma sociedade sem chão para atravessar emoções coletivas. Afinal, todos carregamos dores que não queremos sentir, pois pesam e custam. Então desviamos, evitamos, contornamos para não atravessar o que dói. Tocar na ferida dói, arrancar as crostas também. Afinal, fomos ensinados que a maturidade é controlar emoções, ao mesmo tempo que procuramos incessantemente o bem-estar belo e inspirador como objetivo final e estável. Sim…
Mas…
E se eu te disser que não falo a partir da tristeza mas da potência da vida?
E se eu te disser que a sabedoria do luto vai muito além do que os sistemas modernos tentam evitar, difamar ou tornar ilegível?
Não reconhecer o luto (sistémico e ecológico) é iliteracia metabólica (algo que todos esquecemos aqui na modernidade), como quem não se permite reconhecer as várias fases da vida e as suas múltiplas e inevitáveis perdas. As perdas não são falha. Porque o luto a que me refiro não é uma patologia pessoal a ser corrigida, mas um sinal coletivo e relacional de que a teia foi danificada e que estamos co-implicados nesse estrago. Não é uma dor a superar para voltar ao desempenho da certeza otimizado.
É recado, chamada de atenção à potente realidade crua que habitamos.
O enquadramento do meu trabalho como “muito triste” é um sintoma e expressão de uma defesa coletiva que desconhece ou rejeita a sabedoria metabólica (que é ecológica e sempre cíclica, e ao contrário da fixação moderna no bem-estar e na positividade, inclui todo o espectro emocional). Mas o luto que sentes com o meu trabalho não é um humor ou estado de espírito.
É uma disposição relacional, uma recusa da desconexão. Deixamos de desviar o olhar e de fechar o coração.
Esta membrana de negação existe porque, no nosso contexto cultural moderno, a dor é individualizada (como fardo psicológico privado); medicalizada (tornada patologia ou tratada como disfunção); despolitizada (despojada de contexto histórico, ecológico ou sistémico) e controlada narrativamente (pressionada a “superar”, “encerrar” ou “redimir”). Uma passagem incómoda que somos compelidos a evitar ou a resolver rapidamente. E nada disto é falha individual, mas amnésia cultural. O luto foi domesticado.
Pela nossa lógica de separação, que tende a ignorar as relações com contextos vivos e coletivos, tentamos automaticamente esconder a dor ou o luto (para não “deixar os outros desconfortáveis”); domesticar por modelos e técnicas de etapas legíveis e lineares; contornar, silenciar ou dissociar (por superioridade moral, excepcionalismo espiritual ou distância intelectual). Também somos predados pela indústria do bem-estar que vende alívio em pacotes. Rápida e facilmente suprimimos a agitação do corpo, rescindimos a inquietação, pela velocidade, pela apatia e pela dissociação.
Evitando, assim, qualquer possibilidade de remembramento relacional.
Evitamos sentir para que não doa.
Mas se não sentes esta destabilização é porque não estás a escutar, estás a projectar ou a extrair ou a dissociar (e não, não há culpa aqui).
A meta-relacionalidade revela que o controlo individual da dor é incompatível com a realidade do emaranhamento.
Vou dizer de novo.
A meta-relacionalidade revela que o controlo individual da dor é incompatível com a realidade do emaranhamento.
A rutura do luto que o meu trabalho te faz sentir é frequentemente lida como ansiedade, opressão ou desorientação espiritual, mas não é disfunção. É tremor sagrado. É um portal. Este luto em que me movo não é tristeza desamparada, mas memória funda. É força metabólica (da ecologia em movimento, não para ser resolvida, mas para ser atravessada e acompanhada, juntos). Fala de responsabilidade coletiva (não apenas a tua ou a minha, mas sistémica e ecológica). É, na verdade, um convite ao re-entrelaçamento, dos laços relacionais suprimidos que se tornam momentaneamente inegáveis. Envolventes. Casa Viva. E sim, é sinal de escuta relacional, uma forma diferente de sabedoria que pode ser habitada e sustida, e não silenciada.
Se queres sentir a Terra, vais sentir o luto, o respeito e o compromisso responsável. Nenhuma relação é desprovida de ciclo. Reaprende a tolerância à incerteza, a ficar com o paradoxo da pertença e da intimidade que vincula, que a maturidade e a responsabilidade exigem. Se sentes o encantamento visceral, ele não vem sozinho, vem com chão e com luto. Vem com raiva sagrada e novas perguntas.
Não é sobre nós individualmente, mas sobre a Vida. Deixa o luto mover-se, pois nunca foi só teu, honra a sua voz complexa, abre-te ao desconhecido e à revelação e reverência de, afinal, sempre teres pertencido.
(e não, a vivência do luto não evita viver e sentir alegria, humor ou amor; nunca foi um ou outro…)

Ler artigos relacionados
{Ecopsicologia}
-

Se queres sentir a terra, vais sentir o luto
-

Coerção Silencia a Relação
-

Musas Domesticadas
-

Hiper Individualismo ou Individualismo Colectivo
-

Espiritualidade em Ruínas Vivas
-

Pontos Cegos
-

Conversa Imaginada entre Lorraine Code e Nêgo Bispo
-

A Transpiração da Imanência
-

Ciência Indígena
-

Problemas supercomplexos e pensamento rizomático
-

Ideias que o Mundo Moderno Esqueceu
-

De herói a composto
-

Uma Viagem pela História do Bem-Estar
-

Síndrome de Mudança da Linha de Base Psicológica
-

Sonhar com o Younger Dryas
-

Constelação de Relações
-

Temos de ir para dentro
-

À beira da floresta queimada
-

O Tear
-

Ecopsicologia Relacional
-

Rede de Indra & Rede de Arrasto
-

Da Dominação ao Cuidado
-

Cuidar como prática de rendição
-

“Natureza” não é neutra, cura ou refúgio
-

Se queres sentir a terra, vais sentir o luto
-

Coerção Silencia a Relação
-

Musas Domesticadas
-

Hiper Individualismo ou Individualismo Colectivo
-

Espiritualidade em Ruínas Vivas
-

Pontos Cegos
-

Conversa Imaginada entre Lorraine Code e Nêgo Bispo
-

A Transpiração da Imanência
-

Ciência Indígena
-

Problemas supercomplexos e pensamento rizomático
-

Ideias que o Mundo Moderno Esqueceu
-

De herói a composto
-

Uma Viagem pela História do Bem-Estar
-

Síndrome de Mudança da Linha de Base Psicológica
-

Sonhar com o Younger Dryas
-

Constelação de Relações
-

Temos de ir para dentro
-

À beira da floresta queimada
-

O Tear
-

Ecopsicologia Relacional
-

Rede de Indra & Rede de Arrasto
-

Da Dominação ao Cuidado
-

Cuidar como prática de rendição
-

“Natureza” não é neutra, cura ou refúgio






































