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Saltar o Círculo
No início desta travessia de desaprendizagem, no lento desfazer da centralidade ontológica da modernidade, a imagem que me acompanhava era a de um penhasco. Coberto por uma neblina espessa, vertical e silenciosa. Eu estava diante dele com a estranha certeza de que teria de dar um passo em frente, embora não soubesse se pisaria chão ou cairia no vazio. A imagem não prometia redenção nem destino, transmitia a sensação de um limiar inevitável. Com o tempo a neblina dissipou-se, revelando outras formas de incerteza. O que parecia um abismo revelou-se o sopé de uma montanha altíssima. O movimento que me impelia já não era o de saltar, mas o de subir… lentamente, por um terreno inclinado e instável, onde cada apoio precisava de ser (re)inventado. A vertigem permanecia, não pela queda possível, mas na consciência de que o caminho não conduzia a um centro seguro, apenas a sucessivos deslocamentos do corpo e da perceção.
Mais recentemente a paisagem metamorfoseou-se outra vez. Já não estou à beira nem em subida íngreme. Estou numa clareira da floresta, ao lusco-fusco, no tempo intermédio em que o mundo suspende as suas certezas de dia e de noite. No chão há um círculo de cogumelos. E eu salto para dentro e para fora dele, dentro e fora, dentro e fora. Nos velhos imaginários ibéricos e europeus, círculos eram zonas de feitiço, lugares onde o invisível podia ser invocado, ou onde uma luz protetora tornava impotente o veneno do mundo. Mas os círculos também podem excluir, os feitiços também aprisionam e a proteção pode produzir cegueira. Podemos ficar aprisionados.
Nesta imagem e no movimento de saltar para dentro e fora do círculo, parece um gesto de descentramento.
Durante séculos, a modernidade tem funcionado como um círculo de encantamento que organiza o que pode ser visto, pensado e vivido. Há muito que habitamos círculos de encantamento onde o mundo se organiza em torno de um núcleo invisível. Não o pretendo quebrar nem dominar, simplesmente atravessá-lo. Sabendo que não existe um “fora” da modernidade para quem foi formado dentro dela. Salto, mas levo o feitiço no corpo. No salto carrego violências e fricções, volatilidade e falhas. Repito, uma e outra vez, sabendo que o feitiço também atravessa quem tenta sair dele. Descubro que o círculo continua parcialmente dentro de mim e resisto ao encantamento e ilusão de que, dentro do círculo, tudo é mais seguro, organizado e dominado. Saltar para fora do círculo não é libertação. É aceitar que certas seguranças talvez nunca regressem… tenho perdido fórmulas fixas de conforto, identidade, inocência e pertença.
Saltar para fora deste feitiço não é libertação triunfante, mas descobrir que há floresta. Sem centro, múltipla e pluriversal. O que também traz ambiguidade, desorientação, risco, perda de referência, aqui a orientação nunca está garantida. A floresta nem sempre é abrigo ou hospitaleira, é também lugar de conflito, predação, parasitismo, morte e competição, Não garante inocência ou harmonia.
Trago estas imagens-corpo — penhasco, montanha e círculo — como metamorfoses da própria perceção enquanto a vida se desdobra e o centro se desloca. Não prometem chegada nem superação. Insinuam que, à medida que certos feitiços perdem força, outras formas de atenção se tornam possíveis: uma atenção mais oblíqua, mais porosa, talvez menos segura de si, mas mais capaz de permanecer no lusco-fusco onde o mundo deixa de ser um mapa de destinos e volta a ser uma clareira em movimento.
Por agora limito-me a saltar, dentro e fora, dentro e fora.

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