Quando se lavra um campo

Quando se lavra um campo, por isso que se destrói toda a sua verdura e as suas flores, é bom dizer três vezes:

“Oh! campos vós ‘stas de luto,
As estrelas deitam véu;
Já que vos morreu o amor,
É bom que clame o céu.”

Estava à procura de outras coisas quando encontrei este pequeno dizer. Mastiguei a dor e interrupção que carrega, a legitimação da violência. Trago o meu desconforto de como este pequeno rito, aparentemente de luto e respeito, mas que funciona como um mecanismo simbólico de legitimação da violência sobre a terra. Um fundamento para a implantação do ecocídio sistémico.

O pequeno verso, dito três vezes ao lavrar o campo depois de destruir “toda a sua verdura e as suas flores”, contém uma tensão profunda entre reconhecimento e continuidade da violência. O gesto ritual não ignora a perda, pelo contrário, nomeia-a. O campo é colocado em luto, as estrelas “deitam véu”, o amor morreu. Há uma consciência simbólica clara de que algo vivo foi interrompido.

No entanto, esse reconhecimento não suspende a ação que o provoca. O arado continua a rasgar a terra. O luto não interrompe o gesto, acompanha-o.

É precisamente aqui que o rito revela a sua ambivalência. Em vez de impedir a destruição, ele parece funcionar como uma mediação cultural que permite torná-la suportável. A dor é reconhecida, mas imediatamente enquadrada num dispositivo simbólico que a absorve. A violência contra o campo é transformada em episódio inevitável num cosmos moralizado: o céu clama, as estrelas velam, o campo sofre — mas o trabalho humano prossegue.

O ritual opera assim como uma pequena absolvição poética para o acto de devastação.

Este mecanismo é particularmente revelador quando colocado em diálogo com críticas contemporâneas à espiritualidade que procura transcender a dor em vez de a habitar. Muitas formas de espiritualidade moderna reproduzem o impulso de desmaterializar o sofrimento e “elevar” a dor em vez de a assumir na sua densidade corporal e terrestre, escapando assim à responsabilidade que emerge da relação com o chão. A transcendência torna-se fuga, uma forma de escapar à implicação ética que nasce quando reconhecemos plenamente o que foi destruído.

O pequeno encantamento rural pode, portanto, ser relido à luz desta crítica. O que parece um gesto de respeito à terra revela também um padrão cultural mais profundo: a capacidade de reconhecer a violência sem a interromper. A destruição é ritualizada, tornada poesia e incorporada numa cosmologia que a torna aceitável. A linguagem do luto não gera transformação nem desarruma ou fricciona, passando a funcionar como amortecedor moral.

A perda é cantada para que possa continuar a acontecer.

Neste sentido, o verso revela algo estrutural na história da relação ocidental com a terra. Não se trata simplesmente de ignorância ou indiferença perante a destruição ecológica. Muitas vezes há consciência, há tristeza, há até formas de reverência simbólica. O problema é que essa consciência é frequentemente absorvida por narrativas culturais que acomodam a violência em vez de a interromper. A terra é personificada, chorada, mas permanece disponível para ser transformada, capturada, extraída, devastada.

Assim, o pequeno rito pode ser entendido como um precursor de uma lógica que hoje reconhecemos em escala planetária. O sistema moderno também produz rituais de luto — discursos de preocupação ambiental, imagens da natureza ferida, narrativas de perda — enquanto continua a expandir as estruturas materiais que produzem devastação. O que vemos aqui, numa escala íntima e rural, é uma forma embrionária de algo que se tornará sistémico: a capacidade cultural de metabolizar simbolicamente o dano sem alterar as condições que o geram.

O problema não é o luto em si. O luto verdadeiro tem potência transformadora, interrompe, convoca responsabilidade e exige mudança. O que este pequeno verso revela é uma forma domesticada de luto, uma fórmula ritual que reconhece a perda sem permitir que ela altere o gesto que a produz. Nesse processo, o luto deixa de ser uma força de transformação e torna-se um dispositivo cultural de continuidade.

Relido hoje, o encantamento deixa de ser apenas um fragmento etnográfico. Torna-se um espelho histórico de uma relação profundamente ambígua com a terra: uma relação capaz de amar, lamentar e destruir simultaneamente. É nesta tensão — entre a consciência da perda e a persistência da violência — que se pode entrever uma das raízes culturais do ecocídio sistémico que caracteriza o presente.

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