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Quando Aprender não é acrescentar, mas deslocar
{Talvez não precises de mais ferramentas}
Não nomeio os espaços pedagógicos que crio de (Des)formação por truque de marketing nem por vontade de parecer diferente. O que acontece nesses espaços não é simplesmente pedagógico… é frequentemente vivido como um choque ontológico. Um problema pedagógico é como alguém não entender um mapa, talvez o mapa precise de ser explicado melhor. Um choque ontológico acontece quando percebemos que não estamos apenas a interpretar mal o mapa… descobrimos que existem outros mapas completamente diferentes do mundo.
Quando digo que o que trago pode ser percebido como um choque ontológico e não um problema pedagógico, não estou a afirmar que a dificuldade de compreensão se deve a falta de clareza ou a uma metodologia de ensino inadequada. Um problema pedagógico implicaria que a questão está na forma como algo é explicado, estruturado ou transmitido. Nesse caso, bastaria melhorar a explicação, simplificar conceitos ou encontrar uma estratégia didática mais eficaz para o conteúdo ser assimilado.
Mas aquilo que frequentemente acontece nestes espaços não se resolve com melhores exemplos ou com uma pedagogia mais clara. O que surge é algo diferente: um momento em que as próprias categorias através das quais interpretamos o mundo começam a ser questionadas.
É aqui que aparece aquilo que chamo choque ontológico. A ontologia refere-se às formas através das quais concebemos o que existe, o que é real e qual é o lugar do humano nesse tecido de realidade. A modernidade tende a apresentar a sua própria ontologia como neutra e universal, como se fosse simplesmente “a realidade”. No entanto, quando entramos em contacto com outras formas de compreender o mundo, percebemos que aquilo que tomávamos como dado é, na verdade, apenas uma entre várias maneiras possíveis de organizar o real. Esse momento pode gerar desconforto, confusão ou até rejeição, porque não está apenas em causa uma ideia nova: está em causa o chão invisível sobre o qual construímos a nossa identidade e a nossa forma de pensar.
A pedagogia diz respeito a como aprendemos ou ensinamos algo dentro de um determinado quadro. A ontologia, por outro lado, pergunta pelo próprio quadro, pelas suposições profundas sobre o que é o mundo e quem somos nele. Quando esses dois níveis se confundem, aquilo que é um deslocamento ontológico pode parecer apenas um problema de comunicação ou de ensino.
*
O contrato invisível
A questão é que existe um contrato invisível que molda a maioria das experiências de aprendizagem contemporâneas. Quando entramos numa aula, formação ou workshop, esperamos receber epistemologia (formas diferentes de saber): métodos, frameworks ou ferramentas cognitivas que possamos adicionar ao que já trazemos e que nos permitam operar melhor no mundo. Mesmo quando desejamos transformação profunda, o que muitas vezes procuramos é apenas uma nova lente, uma nova prática ou um novo enquadramento que possamos acrescentar aos que já temos. No fundo, queremos aprender algo novo sem alterar o chão ontológico onde nos apoiamos.
No entanto, os trilhos da Eco-Mitologia e Ecopsicologia não são a adoção ou ampliação do que já sabemos. O convite corta mais fundo: o que é um humano, o que é o mundo e de que modo participamos nele?
Acontece que estas duas camadas, epistemológica (saber) e ontológica (ser), não operam no mesmo nível, e é por isso que a conversa, tantas vezes, parece não encaixar. Quando tocamos na ontologia (formas diferentes de ser-mundo), surgem frequentemente reações de desconforto e respostas defensivas ou tentativas de tradução para algo mais familiar: reduzir o que é dito a método, exigir prática, reinterpretar por de categorias conhecidas, afastar-se intelectualmente ou simplesmente perder o interesse. Estas reações não são falhas pessoais; são movimentos naturais quando o solo conceptual que sustenta a nossa identidade começa a tremer.
A modernidade ensinou-nos a imaginar o seu modo de ser humano como neutro e universal, mas o que chamamos “normal” é, na verdade, uma cosmologia específica entre muitas possíveis, uma forma histórica de organizar o real. E cada cosmologia gera as suas práticas e formas distintas de saber e participar no mundo.
Quando a textura ontológica se torna visível, o que parecia simplesmente “a realidade” começa a revelar-se como apenas uma forma de realidade entre outras. Esse momento pode ser profundamente desorientador, porque o que está em causa não é apenas uma ideia abstrata ou conceptual, mas o próprio corpo-lugar de onde pensamos e existimos.
É por isso que o que trago não é um método, e muito menos um conjunto de ferramentas prontas a aplicar. Aqui tocamos na possibilidade de uma mudança de postura, um deslocamento do eixo e do centro de gravidade, a partir do qual percebemos o mundo e a nós próprios. Não prometo técnicas, soluções ou utilidades imediatas, o que leva à pergunta: então para que serve? Talvez a melhor resposta seja deixar essa pergunta fermentar um pouco mais, decompor-se e deixar-nos surpreender. Porque o convite não é para adquirir algo, mas para reposicionar o ser, reabrindo a possibilidade de relação com aquilo que nos excede, seja em territórios, histórias, outras espécies ou campos vivos de existência.
Neste deslocamento, não se trata apenas de compreender o mundo de forma diferente, mas de participar nele de outra maneira, mais responsável, humilde e madura.

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