Oráculo para viver ciclicamente num mundo em ruínas

Não perguntes
como sobreviver ao colapso.
Não há um, mas muitos,
empilhados como ossos antigos no solo,
cada um a partir-se num ritmo diferente.

Vive ciclicamente,
não porque o mundo está inteiro,
mas porque está fragmentado.

Enfrentando o caos
Respirando a catástrofe
Sentindo calamidades
Não há necessidade de fingir

Ofegamos por ar.

O tempo linear pertence aos impérios,
aos gráficos de progresso e aos mitos de resgate.
Os ciclos pertencem às ruínas,
aos corpos que sabem quando parar,
às estações que continuam a regressar,
por mais diferentes ou extremas que sejam.

As fissuras são sinais.
O colapso económico fala da respiração gananciosamente acumulada.
O colapso ecológico dá voz a todos os parentes separados.
O colapso social expressa a violência não lamentada.
O colapso psíquico articula vidas vividas demasiado depressa,
demasiado isoladas.

Não esperes por um desastre final.

O oráculo diz… o colapso é plural.
Vive a escutar, não a salvar.
Quando os sistemas caem, relaciona-te mais profundamente.
Quando as certezas apodrecem, decompõe-te em cuidado.
Quando os futuros desaparecem, permanece com ritmos ternos:
sono, fome, luto, toque.

A vida cíclica não é otimismo.
É compromisso.
Voto de retorno.
De decomposição.
Descansar sem redenção.
Recomeçar sem promessa de reparação.

O antigo oráculo diz:
Não construas monumentos à resistência.
Constrói práticas de retorno.
Marca o tempo pelo que podes cuidar,
não pelo que podes salvar.

O mundo parte-se
de mais maneiras do que consegues contar.

Cai

Escuta

Volta

Cai de novo

Este não é o fim.

Esta é a matriz a falar.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.