Oráculo para viver ciclicamente num mundo em ruínas
Não perguntes
como sobreviver ao colapso.
Não há um, mas muitos,
empilhados como ossos antigos no solo,
cada um a partir-se num ritmo diferente.
Vive ciclicamente,
não porque o mundo está inteiro,
mas porque está fragmentado.
Enfrentando o caos
Respirando a catástrofe
Sentindo calamidades
Não há necessidade de fingir
Ofegamos por ar.
O tempo linear pertence aos impérios,
aos gráficos de progresso e aos mitos de resgate.
Os ciclos pertencem às ruínas,
aos corpos que sabem quando parar,
às estações que continuam a regressar,
por mais diferentes ou extremas que sejam.
As fissuras são sinais.
O colapso económico fala da respiração gananciosamente acumulada.
O colapso ecológico dá voz a todos os parentes separados.
O colapso social expressa a violência não lamentada.
O colapso psíquico articula vidas vividas demasiado depressa,
demasiado isoladas.
Não esperes por um desastre final.
O oráculo diz… o colapso é plural.
Vive a escutar, não a salvar.
Quando os sistemas caem, relaciona-te mais profundamente.
Quando as certezas apodrecem, decompõe-te em cuidado.
Quando os futuros desaparecem, permanece com ritmos ternos:
sono, fome, luto, toque.
A vida cíclica não é otimismo.
É compromisso.
Voto de retorno.
De decomposição.
Descansar sem redenção.
Recomeçar sem promessa de reparação.
O antigo oráculo diz:
Não construas monumentos à resistência.
Constrói práticas de retorno.
Marca o tempo pelo que podes cuidar,
não pelo que podes salvar.
O mundo parte-se
de mais maneiras do que consegues contar.
Cai
Escuta
Volta
Cai de novo
Este não é o fim.
Esta é a matriz a falar.













