Oráculo da Matéria que Sabe Cair
Não temas a decomposição.
O que cai e se dissolve é traduzido.
Na língua antiga da terra que passa de boca em boca,
de corpo em corpo,
sem nome.
A decomposição é a sabedoria da transubstanciação.
O que foi forma aprende a ser relação.
O pão volta a trigo, o osso volta a sal,
o tempo volta a húmus.
Nada desaparece, mas mudam os altares.
Transformam-se os ritos.
Quando algo apodrece, não está a falhar
está a atravessar o limiar.
É a matéria a lembrar-se
de que nunca esteve sozinha.
A putrefação é a sapiência da consubstanciação.
Não transforma uma coisa noutra, mas faz muitas coisas serem.
Em conjunto.
Fungo e raiz, bactéria e folha,
água e sombra,
respiram o mesmo corpo repartido.
Em metamorfose coletiva.
Na putrefação,
tudo é comido em comum.
Tudo é carne partilhada.
Banquete sem centro.
A putrefação não pede permissão.
Cheira
Repele
E cumpre a lei mais antiga, da vida que chama vida através da morte.
O oráculo do chão canta para quem escuta:
O que resiste a apodrecer endurece e contamina.
O que aceita decompor-se ensina.
O que se oferece à putrefação pertence.
E assim a Terra murmura,
vez após vez,
em retorno e sem fim:
não cures o mundo, desfaz-te com ele.













