O Arquétipo como Território Vivo

 Há muitos anos li o livro de Jean Shinoda Bolen “As Deusas em Cada Mulher” e, claro, fiquei fascinada por estes arquétipos femininos e por como me via neles, ou como sentia que me descreviam. Mas muitos anos passaram e muitas outras perguntas surgiram, umas mais incómodas do que outras:

Então, os arquétipos querem-se universais, mas são baseados num legado cultural específico, o greco-romano?

O que acontece quando nos limitamos a imaginar o arquétipo como uma estátua de mármore branco, obliterando todo o território e contexto que a produziu?

O que realmente dizemos quando dizemos “arquétipo”? Um padrão eterno inscrito na psique humana, repetido ao longo de diferentes culturas como espelho da nossa interioridade? Ou um campo de forças sedimentado em territórios, estações, conflitos e alianças?

Quando evocamos a bruxa, o herói, o mago, estamos a falar sobre nós, ou sobre relações que nos excedem?

Este manifesto nasce da inquietação e suspeita de que algo se perdeu quando deslocámos o centro de gravidade do mundo para o indivíduo, quando transformámos relações vivas em ferramentas psicológicas, quando chamámos universal ao que talvez fosse apenas extraído. Não para negar o arquétipo, mas para o devolver ao chão que o fez possível.

O problema não é o arquétipo.
É o centro de gravidade.

 Não é o arquétipo que nos aprisiona, mas o lugar onde teimamos em colocá-lo. Quando o transformamos em padrão universal inscrito na psique humana, arrancamo-lo do território e instalamo-lo no interior, isolado e impermeável aos fluxos do tempo e da vida. A bruxa deixa de ser memória de perseguição, inverno e saber vegetal ameaçado, tornando-se “sombra feminina”. O herói deixa de ser resposta a fome, guerra ou colapso ecológico, limitando-se a etapa de desenvolvimento pessoal.

O mito, assim deslocado, já não regula mundos, apenas organiza identidades. E nessa translação aparentemente inofensiva, o chão desaparece.

Esta mudança de centro, do território para o indivíduo, não é neutra. É uma operação moderna que converte forças ecológicas em recursos psicológicos. Perguntar “O que isto diz sobre mim?” instala o humano como eixo interpretativo de tudo o que pulsa. Mas os mitos não nasceram para nos explicar, mas para nos situar. Recuperar o arquétipo não é rejeitá-lo, é simplesmente devolvê-lo à densidade da matéria, da história, da violência e da estação. O problema nunca foi o arquétipo, mas a gravidade narcísica que o puxou para dentro, que o fechou a sete chaves dentro da psique humana.

O arquétipo não fala sobre nós.
Fala de relações.

Dizer que o arquétipo “fala sobre nós” é ainda mantê-lo preso à interioridade humana como destino final do sentido. Mas o arquétipo não é confissão psicológica, mas contém gestos e ecos relacionais. Emerge onde forças se cruzam: clima e corpo, poder e território, fertilidade e escassez, medo e comunidade. A bruxa não fala “sobre mim”, fala da tensão entre saber e perseguição, entre floresta e aldeia, entre mulheres e regimes de controlo. O guerreiro não fala “sobre o meu impulso de afirmação”, fala de fronteiras, de invasões, de colapsos, de pactos.

O arquétipo é um nó onde histórias materiais e ecologias inteiras se tornam figura.

Quando o reduzimos a espelho interior, desativamos a sua função ecológica. Ele deixa de regular relações e passa a ornamentar identidades. Mas os arquétipos nasceram como gramáticas de mundos, não como ferramentas de auto-expressão. Ensinavam quando plantar, quando temer, quando atravessar, quando recuar. Falavam de rios, estações, linhagens e limites. Se quisermos libertá-los dos grilhões psicológicos, precisamos de reaprender a escutá-los não como reflexo do “eu”, mas como padrões vivos que nos situam numa teia maior do que qualquer biografia.

E sim identificamo-nos com os arquétipos visceralmente, como memória antiga que sacia uma sede que nem sabíamos que tínhamos, exactamente porque a nossa identidade é SEMPRE composta de relações.

O universal é, muitas vezes, o nome elegante da extração.

Chamamos “universal” ao que se repete, ao que atravessa culturas, ao que parece eterno e aparentemente sempre igual. Mas repetição não é prova de essência; pode ser rastro de ferida comum, de condição partilhada, de estruturas materiais semelhantes. Quando um arquétipo é declarado universal, algo se silencia: as diferenças de solo, de clima, de violência, de cosmologia. O universal alisa, transforma pedra irregular em mármore exportável. E nessa operação, o que era contexto singular torna-se abstrato e invisível, pronto para circular sem pedir licença ao território que o gerou.

Há uma elegância perigosa no universal, pois permite falar de “A Mãe”, “O Herói”, “A Sombra”, como se fossem formas puras suspensas acima da história.

Mas todas as formas, além de passageiras, nascem de condições concretas. Toda a figura carrega sangue, estação, política, geografia. Quando nos esquecemos disso, o universal torna-se uma tecnologia de extração simbólica, retirando padrões de contextos específicos e reapresentando-os como património humano neutro. O que proponho não é negar ressonâncias entre culturas, mas recusar a pressa de traduzi-las em essência. Antes de chamar algo universal, perguntemos: de que chão foi arrancado? Quem ficou invisível para que pudesse parecer eterno?

Quando o mito fica ferramenta de desenvolvimento, o mundo encolhe.

Há um momento subtil no qual o mito deixa de ser território e passa a ser instrumento. Nesse momento, já não perguntamos “que mundo está aqui a em movimento?”, mas “como posso integrar isto?”. A linguagem muda: trabalhar o arquétipo, activar a energia, curar a sombra, incorporar o feminino, desbloquear o herói. O mito e o arquétipo tornam-se técnica de optimização interior.

E o que antes era uma força que fundava relações entre humanos, animais, mortos, estações e rios, passa a ser etapa num percurso de crescimento pessoal.

Nada disto é inocente. O psicocentrismo total do mito acompanha a lógica de uma modernidade que transforma tudo em recurso, até o sagrado. O arquétipo torna-se portátil, aplicável, vendável. Pode ser usado em coaching, marketing, espiritualidade de consumo. Mas quanto mais ele serve o “eu”, menos ele serve o mundo. O que era uma gramática ecológica de limites e interdependência torna-se narrativa de auto-realização. E assim, sem que nos apercebamos, o mito encolhe à medida do indivíduo. A floresta desaparece. Fica apenas a jornada do herói.

Não há arquétipos inocentes.
Há histórias sedimentadas.

Mas nenhum arquétipo cai do céu como forma pura. É sempre sedimento, camadas de experiências e relações acumuladas, de medo, desejo, violência, ou celebração. A figura da bruxa traz consigo perseguições concretas, corpos queimados, saberes vegetais interditos. O herói transporta consigo campanhas militares, fronteiras disputadas, masculinidades forjadas em guerra.

Mesmo quando a narrativa parece etérea, ela é feita de matéria histórica compactada. O arquétipo é rocha, mas rocha feita de ossos, estações e decisões políticas.

Chamá-los “eternos” é esquecer que foram produzidos. Chamá-los “humanos” é apagar as condições específicas que os tornaram possíveis. Não existem arquétipos neutros; existem padrões que sobreviveram, porque certas formas de poder sobreviveram com eles. Se queremos escutar o mito e os arquétipos de modo ecológico, temos de aceitar que cada figura carrega marcas de exclusão, de privilégio, de adaptação ao ambiente e de resistência. O arquétipo não é inocente. É memória, e só quando escavamos essa memória é que ele deixa de servir a repetição e começa a abrir possibilidade.

O arquétipo como forma fixa: a sedução da profundidade

A psicologia arquetípica, em Jung, não é ingénua nem superficial. Nasce de uma tentativa séria de reconhecer padrões trans-históricos da psique humana, estruturas que organizam imagens, sonhos e mitos. Jung não propõe arquétipos como conteúdos fixos, mas como matrizes formais que se manifestam em múltiplas variações. Ainda assim, ao situá-los no inconsciente colectivo numa postura antropo e psicocêntrica, a gravidade desloca-se para uma arquitectura psíquica “universal”. A floresta torna-se cenário da alma e não colectivo soberano. A guerra torna-se expressão de Ares.

A figura mítica passa a ser chave interpretativa de estados interiores, moldados a partir da matriz da psique eurocêntrica. O território vivo é traduzido em símbolo que serve apenas aos humanos (e nem todos os humanos).

O problema não está na profundidade, mas na imobilização e na delimitação impermeável, quando, na natureza, tudo é poroso e permeável. Quando Hillman associa guerra a Ares, a violência humana parece inevitavelmente capturada por uma constelação arquetípica que a precede e a governa. A narrativa traz uma solidez quase ontológica: antagonismo conduz à guerra, salvo se temperado por outra força arquetípica. Mas que relações históricas, económicas, coloniais, patriarcais ficam obscurecidas quando a guerra é elevada à esfera do eterno? Que alternativas se tornam impensáveis quando a violência é inscrita numa gramática arquetípica que parece anterior ao mundo material? A profundidade psicológica pode, sem querer, naturalizar o que é produzido numa cultura concreta e que nunca foi universal.

Apagando outras formas de ser mundo, outras possibilidades de formas e fluxos arquetípicos são amordaçados, tornando-se inimagináveis.

Não esquecendo a popularização contemporânea dos arquétipos, pelo influente As Deusas em Cada Mulher, de Jean Shinoda Bolen, que tornou esta cristalização ainda mais evidente. Numa metamorfose que marca a limitação ecológica, pela conversão de cosmologia em psicologia. Ao traduzir deusas gregas em tipologias psicológicas femininas, a mitologia é elegantemente interiorizada: Atena torna-se estratégia mental, Afrodite torna-se erotismo criativo, Deméter torna-se maternidade. O gesto é libertador em muitos aspectos, especialmente no contexto feminista em que surgiu, mas permanece ecologicamente separado.

As deusas perdem território, perdem solo, perdem estação e relações mais vastas com todos os não-humanos que as geraram. Perdem a vastidão de todo um território vivo.

A economia agrícola, a estrutura patriarcal, os regimes de guerra, as geografias específicas que moldaram essas figuras dissolvem-se em categorias psíquicas universais, como se fossem a “verdade” ou como o mundo “sempre funcionou”. Apagando a localização geográfica e histórica da voz que assim as define. O que era cosmologia localizada torna-se mapa identitário. O arquétipo deixa de regular mundos e passa a organizar personalidades. E, nesse movimento, o mito é suavemente desmaterializado. Com o corte cada vez mais fundo, perdemos o chão uma e outra vez.

Compostar o arquétipo: da ontologia à ontogénese

O que está em jogo não é rejeitar Jung, mas deslocar o enquadramento. Mover o corpo e transformar o olhar. Se o mito é ecológico, então o arquétipo não é fundamento de essência, mas uma forma provisória de captar o real. Um fluxo, um gesto, um momento. O “eco” no eco-mítico introduz precisamente essa inflexão, não ontologia fixa, mas ontogénese em curso. Co-gestamos metamorfoses, na realidade como processo paradoxal, gerador de diferença na interdependência.

O arquétipo deixa de ser estrutura estável do inconsciente colectivo e passa a ser matriz viva e emergente num campo metabólico de relações ecológicas.

Se a natureza cria diferenciação sem separação, então também o mito deve poder mover-se da mesma forma. Também a linguagem pode abrir portais em vez de congelar sentidos. O mito pode fabular com o mundo, co-compor-se com ele, ou pode fixá-lo numa leitura final. Decompor o arquétipo fixo é devolvê-lo ao processo e ao devir da teia da vida. Permitimos que perca a sua aura de necessidade e essência eterna e recupere a sua condição de criatura localizada, aberta à refabulação. Co-gestamos metamorfoses. Não contra Jung nem contra o mito, mas para além da sua imobilidade e cristalização implícitas.

Ritual de devolução: habitar o arquétipo como território vivo

Se o arquétipo deixou de ser estátua e voltou a ser território, então a nossa postura também muda. Já não nos aproximamos dele como quem identifica traços de personalidade, mas como quem pisa um solo vivo, pleno de agência e memórias. Antes de dizer “eu sou isto”, talvez possamos perguntar: que relações atravesso quando pronuncio este nome? Que memórias colectivas, que feridas históricas, que estações do mundo se activam quando invoco esta figura? Em vez de integrar o arquétipo, escutemo-lo. Em vez de o usar como espelho passivo, habitemo-lo por um momento, com cuidado, lentidão e consciência de que entramos num território onde humanos, mortos, plantas e conflitos continuam a respirar. Co-gestamos metamorfoses.

Proponho-te, então, um pequeno ritual relacional.

Escolhe uma figura arquetípica que te habita, não para a afirmar ou firmar como identidade, mas para devolvê-la ao mundo. Entra no seu vasto corpo-território e pergunta-lhe: de que chão nasceste? Quem pagou o preço da tua forma? Que mundo regulavas antes de te tornares símbolo psicológico? E depois, em silêncio, desloca o centro, sente o corpo como um nó numa teia maior, não como herói da narrativa. Deixa que o arquétipo se desfaça um pouco, perdendo o contorno fixo e abrindo-se a ser lugar de novo, voltando a ser um campo de forças em movimento, como um bando de pássaros que levanta voo. Que volte a ser gesto e território vivo. Talvez aí possamos resgatar outra postura, não a de proprietários de símbolos fixos, mas a de participantes numa ecologia viva de sentidos.

Não dominamos o arquétipo, pois a sua forma nunca foi final.
Mas podemos cuidar do território que o produz.

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{Ecopsicologia}

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.