Nus

 

Começámos nus

Não perdidos nem ignorantes

Mas pele com chão

Lágrima com mar

Em corpos-lugar que se reconhecem

Parentes e ancestrais

 

Bússolas vivas

 

Começámos nus

A vaguear em escuta

Em diálogo

Em canto e abraço

 

Em pele nua trilhamos o mundo

E Ele abraçou-nos de volta

Empurrados pelo vento

E pelas histórias das árvores e

as orações das montanhas

 

Pela pele escutávamos fundo

Mas

Pela dor da falta e pelo frio do medo

Cultivamos a vergonha e exilamo-nos do paraíso

Vestimo-nos de civilização e tecnologia

Agasalhamo-nos de religião

Enroupamo-nos de susto e desejo voraz

Armámo-nos de armas e conquista

E achámo-nos superiores

Únicos e especiais

Pela insegurança

Empunhamos certezas

Exigindo conforto e privilégio 

Mas pelo caminho

 

Perdemos a pele

A que sabe cantar em conjunto

Esquecemos o toque

Que conhece a pele do mundo

Olvidamos os pactos

Delapidamos a cura

Dessoubemos os ritos

Ficámos sozinhos

Órfãos

A achar que o mundo estava calado

 

Acabámos nus e perdidos.

Despidos por dentro

Deslembrados

Encandeados

Esquecidos

Sem saber como voltar a um mundo vivo.

{Imagem: Ghost Dancer – Kwakiutl by Edward S Curtis. Original public domain image from Getty Museum}

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.