Nus
Começámos nus
Não perdidos nem ignorantes
Mas pele com chão
Lágrima com mar
Em corpos-lugar que se reconhecem
Parentes e ancestrais
Bússolas vivas
Começámos nus
A vaguear em escuta
Em diálogo
Em canto e abraço
Em pele nua trilhamos o mundo
E Ele abraçou-nos de volta
Empurrados pelo vento
E pelas histórias das árvores e
as orações das montanhas
Pela pele escutávamos fundo
Mas
Pela dor da falta e pelo frio do medo
Cultivamos a vergonha e exilamo-nos do paraíso
Vestimo-nos de civilização e tecnologia
Agasalhamo-nos de religião
Enroupamo-nos de susto e desejo voraz
Armámo-nos de armas e conquista
E achámo-nos superiores
Únicos e especiais
Pela insegurança
Empunhamos certezas
Exigindo conforto e privilégio
Mas pelo caminho
Perdemos a pele
A que sabe cantar em conjunto
Esquecemos o toque
Que conhece a pele do mundo
Olvidamos os pactos
Delapidamos a cura
Dessoubemos os ritos
Ficámos sozinhos
Órfãos
A achar que o mundo estava calado
Acabámos nus e perdidos.
Despidos por dentro
Deslembrados
Encandeados
Esquecidos
Sem saber como voltar a um mundo vivo.
{Imagem: Ghost Dancer – Kwakiutl by Edward S Curtis. Original public domain image from Getty Museum}













