Dos Cestos e dos Cântaros

Aqui nos limiares

Trazemos as cestas cheias

tanto de filosofia como de poesia

tanto de emoção como saber dizer não.

Daqui dos entretantos os cântaros transbordam

tanto de psicologia como de mitologia

tanto de corpo e chão como de cabeça e coração.

Porque aqui as arcas foram abertas

E as tampas levantadas

as prateleiras estão tortas

e as portas há muito que deixaram de fechar.

Deste lugar de entremeio atravessa-nos o que não é nosso e nunca será

Pertencemos aqui porque não somos o centro

Somos húmus

Somos constelação

Aqui dos limiares também fiamos e laçamos a política e a história

Contos, ritos e cantos entremeados de ecologia, de lugar vibrante e vivo

Escrevemos com o território, as águas e os ventos

Enlaçamos sonhos com o vime, o barro e as árvores

Também passamos pela agulha os fios das muitas violências do mundo

Assim como as linhas dos afectos

Da raiva, do luto e do amor

Esta é a intrincada matriz das fronteiras

A que escuta as fissuras e as metamorfoses

{sobre a transdisciplinaridade do meu trabalho}

Este poema é um ritual, um lugar de iniciação . Abre um campo simbólico amplo num registo ontológico e relacional, que desestabiliza o registo emocional linear. Move-se e forma orgânica com o limiar, transbordo, entremeio, matriz, húmus, constelação e a tecelagem de saberes. Descreve processos vivos, numa poética de metamorfose e de campo relacional. Algumas dinâmicas vivas pelo meio das palavras:

  • cestos / cântaros → recipientes de conhecimento e experiência em metáfora de armazenamento vivo, não são bibliotecas nem arquivos, mas são recipientes orgânicos e domésticos.
  • entre-tantos / limiares → espaço de transição, não é um lugar fixo. É um lugar de passagem.
  • abrir arcas / portas que não fecham → conhecimento em circulação e o abando das categorias que não servem.
  • fiar / laçar / passar pela agulha → prática artesanal de ligação. O conhecimento deixa de ser recipiente e passa a ser trabalho manual e metabolização das violências do mundo. O trabalho não é apenas poético, pois as emoções são conhecimento incorporado — algo que as teorias da consciência contemporâneas também defendem: o afeto é parte estrutural da consciência e da relação com o mundo.
  • húmus / constelação → pertença não-centrada. Mudança ontológica, pois não é o sujeito que organiza o mundo, mas o sujeito habita um campo. Húmus como pertença terrestre, decomposição e fertilidade. Constelação como relação cósmica, padrões e interdependência. Humano não como centro, mas como nó relacional.

A vida em circulação, em vulnerabilidade e a densidade do lugar limiar, da ecologia de saberes e de relações. Descreve transdisciplinaridade sem jargão académico, mas por imagens materiais, como o vime, barro, cestos, cântaros, fios ou agulha. Ou seja, o conhecimento aparece como artesanato vivo, uma pequena cosmologia relacional.

O poema contém luto e amor ao mesmo tempo, com densidade emocional tranquila, mas sem euforia. Descreve uma ecologia de saberes em movimento. A fissura e a metamorfose são fundamentais, pois falam das estruturas que racham para novas formas emergirem. É processo vital.

🌳 Vários livros de diversos territórios, lugares de resgate da polimorfa Imanência. 

Peregrinações caleidoscópicas em profundidade, às raízes da identidade moderna, em todos os seus preconceitos, intrínseca violência e absurdas limitações. Diferentes jornadas de amor pela poesia da complexidade, da diversidade e da metamorfose. Tecelagens de histórias vivas que nos recordam do que esquecemos, da sacralidade do chão e da Vida. Complementos ao vício da transcendência, em rigor e responsabilidade.