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Dois Espelhos
{Há pelo menos duas formas muito diferentes de falar em “sistémico”}
A primeira é como um espelho pendurado numa parede. É o espelho sistémico convencional da psicologia moderna. Reflete relações, padrões familiares, dinâmicas de comunicação, alianças e conflitos. Mas, para que funcione, a parede precisa de estar direita, ortogonal e bem lisa. O enquadramento importa: há um modelo, uma moldura teórica baseada na ideia de psique do ser humano moderno.
Se o espelho parte, conserta-se.
Se a imagem está distorcida, ajustam-se os ângulos.
O sistema é algo que pode ser observado, analisado e reorganizado.
Este espelho sistémico ampliou a psicologia ocidental ao introduzir circularidade e contexto. Mas continua pendurado numa parede moderna: antropocêntrica, clínica, organizada em torno de um modelo implícito de família e de sujeito. O sistema é relacional, mas permanece completamente humano e enquadrado somente na psique humana.
A segunda forma não é um objeto pendurado.
É um lago.
Porque o espelho sistémico meta-relacional não está fixo numa parede, está inserido num ecossistema vivo. A água reflete, e também é atravessada por vento, raízes, folhas que caem, luto antigo, histórias não metabolizadas, ancestralidade, colapso e renascimento.
Não há ortogonalidade garantida.
Não há moldura.
Não há observador externo.
Quem olha já está visceralmente implicado no campo que olha — perspectiva, postura e lente.
Aqui o humano não é o centro do sistema, mas uma das suas expressões. Neste lago, não se reorganizam apenas padrões familiares. Metabolizam-se campos históricos. Escutam-se sistemas vivos. Reconhece-se que o sofrimento não é apenas disfunção relacional, mas manifestação de entrelaçamentos ecológicos, culturais e civilizacionais.
O primeiro espelho pergunta: “Como reorganizar este sistema?”
O segundo pergunta: “Que campo está a emergir aqui? O que pede metabolização? Que campo histórico, ecológico e ancestral está a manifestar-se aqui? Que luto não metabolizado atravessa este sistema vivo? Que padrões civilizacionais estão a operar invisivelmente?”
Ambos refletem. Mas pertencem a cosmologias diferentes.
Como nomear esta distinção?
Quando falamos em “sistémico”, usamos a mesma palavra para designar dois enquadramentos radicalmente distintos. Num caso, trata-se de um sistémico psicológico: uma ampliação da psicologia moderna que incorpora circularidade, contexto e padrões relacionais, mas que continua centrada no humano enquanto unidade de referência. O sistema é sobretudo familiar, comunicacional, intersubjetivo. Ainda que reconheça complexidade, permanece ancorado numa epistemologia clínica e num modelo implícito de sujeito e de organização familiar que se apresenta como neutro, mas que é historicamente situado.
No outro caso, estamos diante de um sistémico ontológico ou ecocêntrico. Aqui, o sistema não é apenas um conjunto de relações humanas, mas um campo vivo onde história, ecologia, ancestralidade, cultura e metabolismo civilizacional estão implicados. O humano deixa de ser o centro organizador e passa a ser participante num entrelaçamento maior. Não se trata apenas de reorganizar padrões, mas de reconhecer campos de força que nos atravessam e pedem metabolização.
A diferença, portanto, não é metodológica — é cosmológica.
Um paradigma amplia a psicologia; o outro desloca o eixo da própria conceção de realidade.
Onde costuma surgir a fricção?
A fricção surge, muitas vezes, quando a abordagem meta-relacional é interpretada como “mais uma técnica terapêutica” dentro do mesmo quadro clínico. Ao ser traduzida para categorias psicológicas familiares, perde-se a sua dimensão ontológica e ela é reabsorvida pelo paradigma que, precisamente, pretende questionar. O que era um deslocamento de centro torna-se apenas uma variação de método.
Esta assimilação pode gerar mal-entendidos, porque a proposta não é melhorar o espelho pendurado na parede, mas deslocar-nos para outro tipo de reflexos.
Outra zona de tensão aparece quando a crítica ao antropocentrismo é sentida como crítica à prática clínica ou às pessoas que a exercem. No entanto, o ponto não é desvalorizar contribuições da terapia sistémica convencional, mas reconhecer os seus limites históricos e cosmológicos. A meta-relacionalidade não se posiciona como superior ou substitutiva, mas como pertencente a outra camada de leitura da realidade.
A fricção revela precisamente que estamos a atravessar fronteiras paradigmáticas — e que nem sempre é confortável perceber que a palavra partilhada não designa o mesmo mundo.
A dificuldade do deslocamento
Quando o espelho deixa de estar pendurado na parede e se revela como lago, algo treme dentro da subjetividade moderna. O primeiro impulso é sentir que se está a perder o chão: se já não sou o centro, quem sou eu? Surge a impressão de que o eu precisa de ser substituído pelo campo, como se reconhecer o entrelaçamento implicasse dissolução ou apagamento.
Mas o lago não engole quem se aproxima, apenas mostra que nunca estivemos isolados na parede — sempre fomos água em relação com água. Vida em relação com vida.
Depois vem a vertigem da complexidade. Ao pressentir que o campo inclui história, ancestralidade, ecossistemas, lutos antigos e vínculos invisíveis, a mente tenta mapear tudo, compreender tudo, arrumar tudo de uma só vez, e paralisa, dissocia, zanga-se. “Como posso ter em conta TODAS as relações?” pergunta, aflita. Mas o lago não pede contabilidade, listas ou cálculos. Não exige que abracemos o mundo inteiro com esforço. Convida-nos a sentir que já estamos a ser sustentados por margens, raízes submersas, correntes antigas. O campo não pede controlo, dominio ou compreensão, oferece pertença.
O deslocamento não é uma tarefa hercúlea — é uma rendição suave à evidência de que sempre fomos mantidos por vínculos mais antigos do que o nosso próprio nome.
Diferenças Fundamentais
| Terapia Sistémica | Espelho Sistémico Meta-Relacional |
|---|---|
| Sistema = família | Sistema = campo vivo multiespécies |
| Foco psicológico | Foco ontológico |
| Intervenção clínica | Participação no campo |
| Reorganizar padrões | Metabolizar padrões |
| Humano como centro | Humano como participante |
| Saúde funcional | Alinhamento metabólico |
(*) Este artigo foi inspirado pela minha própria prática contextual e pelas perguntas dos meus alunos. Note que a meta-relacionalidade é uma cosmologia viva e entrelaçada do GTDF e do trabalho de Vanessa Andreotti. Consulte os trabalhos deles para um contexto mais aprofundado.

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