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Coisas que nunca diria #1
Somos todos Um
Há coisas que eu nunca te diria. Uma delas é o cómodo e aparentemente generoso “somos todos um”. Digo aparentemente porque esta frase, tantas vezes bem-intencionada, tem servido historicamente para apagar diferenças reais, silenciar assimetrias de violência e exigir reconciliações abstratas a quem nunca foi incluído. Em nome de uma unidade espiritual ou humana supostamente superior, dissolvem-se histórias concretas de invasão, despossessão, extração, escravização, silenciamento e exílio. O “um” torna-se assim uma forma subtil de universalismo: pede a quem foi violentado que abdique da sua diferença para caber numa totalidade que nunca foi construída com ele.
Prefiro outra coisa: um monismo diverso. Em Baruch Spinoza, não há separação entre substância e mundo, mas há diferença de modos; unidade sem homogeneização. Em Denise Ferreira da Silva, a diferença não é separável, mas também não é absorvível — ela insiste, perturba, desobedece às narrativas de reconciliação limpa. E em Lynn Margulis, o conceito de holobionte lembra-nos que nunca fomos indivíduos fechados, nem uma massa indiferenciada, mas co-existências metabólicas: bactérias, fungos, plantas, humanos, histórias e feridas a viverem em co-dependência assimétrica. Não somos “todos um”. Somos muitos, diversos, diferentes, em metabolismo partilhado — e é precisamente aí, nessa pluralidade irreconciliável mas implicada, que começa qualquer ética que não seja violenta.
Coisas que nunca diria #2
Contos Eco-míticos são Conteúdo
Há outra coisa que eu nunca diria: que contos eco-míticos são conteúdo. A palavra “conteúdo”, tal como hoje circula, pertence à gramática da extração: algo que se produz, empacota, optimiza, distribui e consome. Conteúdo é matéria para preencher vazios algorítmicos, para sustentar atenção, para gerar tráfego. Os contos não cabem aí. Quando são tratados como conteúdo — seja no marketing de redes sociais, na factualidade informativa ou numa erudição linear que promete mistério sem risco — são esvaziados daquilo que os torna vivos.
Contos nunca são conteúdo. Contos são vida. Vida que se dobra, se desdobra e se transforma no encontro. Contos não informam: tocam, atravessam, desorganizam. São criaturas vastas e indóceis, com pelo, penas e garras; não se deixam domesticar sem morder de volta. São sonho e são território, são memória de osso, são alimento e água. Um conto não se “consome”, entra-se nele como quem entra numa floresta, numa gruta ou num rio: sem garantia de regresso igual. Reduzir contos a conteúdo é arrancá-los do húmus que os sustém; escutá-los como vida é aceitar ser transformada por eles.
Coisas que nunca diria #3
Procuro uma Verdade Universal
Há outra coisa que eu nunca diria: que procuro a verdade universal. Esta afirmação nunca é neutra, mesmo quando se apresenta como tal. Ela assenta em dois pilares centrais da modernidade colonial: a universalização, que transforma o mundo numa superfície homogénea onde a diferença é sistematicamente silenciada — ou, quando convém, tornada exótica, consumível, desejável — e a neutralidade, esse lugar fictício de equilíbrio moral, apresentado como seguro, não contaminado, acima do conflito. Mas a neutralidade não existe e a normopatia, foi há muito capturada pelos valores da modernidade dissociada; declarar-se neutra é, quase sempre, alinhar com a ordem dominante sem o nomear.
A sede de uma verdade universal e homogénea é, no fundo, um pesadelo ecológico. Uma monocultura da alma e da mente. Tal como nas monoculturas agrícolas de máximo retorno mas que só devolvem erosão e empobrecimento dos solos, elimina os meandros, fragiliza os sistemas e reduz drasticamente a capacidade de resposta da vida. A ecologia ensina-nos que a potência está na diversidade, na diferença sem separabilidade, na fricção entre formas de existir. A vida não é plana, não é estável, não é imparcial. A vida não é neutra. Ela inclina-se, prolifera, resiste, excede, erra. Procurar uma verdade única é amputar a complexidade do real; escutar verdades contextuais é aceitar que viver é habitar uma teia de forças múltiplas, irredutíveis, profundamente relacionais.
Coisas que nunca diria #4
O Ser-Humano é “assim”
A frase «o ser humano é assim» não é uma descrição, é um feitiço. Uma violência silenciosa que universaliza uma formação específica, muitas vezes ocidental, moderna, branca, codificada pelo homem, extrativa da humanidade e a declara como referência. O que é apagado nessa uniformização é vasto: os rituais de luto dos Dagara, as constelações familiares dos Quechua, a humildade epistémica dos Yoruba, a recusa em separar o espírito do solo. Quando a humanidade é apresentada como singular, torna invisíveis as densas camadas de herança colonial, separação ecológica e silenciamento ancestral que sustentam esse “assim”. A exigência de universalidade, então, não é neutra, é todo um império disfarçado.
Mas e se mudarmos a gramática? Não do absoluto para o relativismo, mas do absoluto para o ecológico. Falar do “humano” como enraizado, entrelaçado, ancestral e situado. Não para purificar ou essencializar, mas para compostar a normopatia. Para permitir que outras formas de ser humano, migrante, queer, animista, neurodivergente, ligado à terra, não verbal, voltem a ser legítimas. Não através da permissão, mas pela presença digna. Vamos desfazer o humano totalizante, permitindo que muitos tipos de humanidade respirem. Não como fragmentos a serem estudados, mas como mundos com os quais se pode relacionar.

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