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As Quatro Peles dos Contos Eco-Míticos
A Pele do Corpo Simbólico
Contos populares (maravilhosos, tradicionais ou de fadas) não explicam ideias, fazem-nas vibrar no corpo. Conceitos como interdependência, espírito do lugar ou reciprocidade não são apresentados como doutrina, mas como gestos, encontros e metamorfoses que podem ser sentidos antes de serem compreendidos.
Em vez de dizer “tudo está interligado”, um conto mostra uma personagem que, ao ferir uma árvore, adoece e só se cura ao cantar ao vento que lá vivia.
No mundo moderno, fomos ensinados a abordar ideias de fora para dentro, primeiro compreendê-las racionalmente, depois, talvez, senti-las. O conto popular, ao contrário, age de dentro para fora; não começa por explicar, começa por encantar, inquietar, tocar.
Aqui tecemos a pele do conto como ferramenta de incorporação. Quando escutamos uma história, não a “entendemos”, mas temos a oportunidade de viver a por dentro, sentimos o medo do protagonista, o som do vento no bosque, o frio da gruta, a presença do bicho. O corpo-lugar torna-se palco da ideia. Palavras caras como “reciprocidade” deixam de ser conceitos secos e abstratos, passam a viver no gesto de devolver água ao poço antes de partir.
Por outro lado, os contos populares operam com símbolos vivos e memória funda, imagens cuja representação está perdida da memória, mas ainda fazem vibrar o corpo. Um lobo que fala, uma pedra que guarda um segredo, uma menina que se transforma em fonte. Estes elementos são chaves de acesso tangível a realidades complexas. “Interdependência” aparece como o eco de um canto que só se ouve quando dois seres respiram juntos. “Cuidado” assume a forma de um fio de lã que se desfaz se o herói mentir. “Memória ancestral” encarna numa avó que cospe terra em vez de palavras. As ideias e conceitos passam a ter chão e corpo; são rituais que ligam o interno ao externo e vice-versa.
Neste contexto entrelaçado e vibrante, reconhecido pela memória oral, a compreensão emerge como metamorfose e não como conclusão fixa. Porque, no conto, não há tese final. O ouvinte não sai com um “resumo”, sai transformado. Algo se mexeu. Um nó foi deslaçado. Uma imagem, um sopro, uma textura ficam a ressoar por dias. Esta é a pedagogia ritual e ancestral dos contos: provocar deslocamentos sensíveis e imaginativos que, depois, se tornam práticas.
Uma história sobre uma serpente que devora a própria cauda pode não “ensinar” sobre ciclos. Mas pode levar quem a escuta a tratar a mudança com reverência, sem nunca ter usado essa palavra.
Por último, o conto pode ser um antídoto ao esvaziamento teórico. Ideias como “parentesco ecológico”, “espírito do lugar” e “reciprocidade simbiótica” são belas, mas podem tornar-se vazias e abstratas se circulam apenas em discursos. O conto popular tem o potencial de reacender o chão dessas ideias. Pode dar-lhes pele, sangue, voz e ritual. Em vez de dizer “a terra tem agência”, pode-se contar: “O campo ficou triste quando o homem começou a falar mais alto do que os pássaros. E não deu mais batatas.” Este gesto narrativo desarma a resistência e reintegra a sabedoria no sensível, no corpo-lugar que se lembra.
A Pele da Vulnerabilidade vs a Armadura da Reação Defensiva
Frequentemente, ideias ecológicas ou decoloniais, quando introduzidas diretamente, geram resistências e negações veementes, devido ao confronto identitário ou ao aparente excesso de complexidade. Ao usar linguagem simbólica, circular e relacional, o conto evita o confronto direto e abre espaço para uma escuta mais profunda.
Ao contrário do discurso direto que ativa o ego argumentativo, o valioso imaginário desloca o ego e, com ele, a necessidade de “ter razão”. O ego tende a reagir a afirmações diretas, procurando defender-se com factos objetivos. Mas fica desorientado (e, por isso, permeável) diante de uma imagem viva, de um animal falante, de uma pedra que chora, de um nome esquecido que volta em sonho.
Quando ideias ecológicas, decoloniais ou críticas ao modo de vida moderno, eurocentrado e dominante, são apresentadas de forma direta e racional, podem ser percebidas como uma ameaça à identidade, ao conforto cognitivo e à posição social de quem as escuta. Exemplos de gatilhos comuns: “O mundo moderno separou-nos da terra.” “A tua forma de vida é cúmplice da devastação ecológica.” “O conhecimento dominante é colonial.” Mesmo quando verdadeiras, estas afirmações podem despertar reatividade defensiva, levando o ouvinte a fechar-se, justificar-se e desviar o foco, em vez de se abrir com curiosidade e humildade ao questionamento.
Os contos trazem este potencial imemorial de contornar as defensas, resistências e negações, não pelo engano, mas pela incorporação. Pois, em vez de defender, justificar, acusar ou explicar, o conto faz viver a experiência simbólica da ferida ou da cura. Move-se numa frequência mais lenta e profunda, não diz “tu és parte do problema”, mas convida a sentir o que é estar em desequilíbrio com o mundo. Por exemplo: “Era uma vez um homem que vivia sobre uma ponte partida. Não sabia disso até que o som da água começou a falar com os seus ossos.” Aqui, ninguém está a ser acusado, mas a escuta interior é ativada. O ego não é convocado a defender-se, mas a dissolver-se um pouco.
O conto não apela à lógica, mas sim à ressonância simbólica. Fala com camadas que não precisam “ter razão” para pulsar, fala com o corpo, com o mito e com a memória esquecida. O imaginário desloca o centro da conversa e, por isso, não entra em confronto direto com as estruturas defensivas do pensamento. Exatamente porque quando não é sobre “ti”, torna-se mais fácil transformar.
O conto fala “do outro”, uma moura encantada, um vento sem nome, um lavrador que esqueceu o canto dos rios. E quem escuta reconhece-se sem se sentir julgado. Este espelho simbólico cria um espaço de escuta mais íntimo e menos reativo, pois quem escuta pode dizer a si mesmo: “Não sou eu… mas poderia ser.” E é nesta fresta que a metamorfose se torna possível.
A Pele Ancestral e Sensível
Os contos populares não pertencem a um indivíduo; são voz em coro, memória de comunidade, eco do território. Quando recorremos aos contos para transmitir ideias, reativamos um modo ancestral de saber coletivo, sensorial e oral, permitindo uma reaprendizagem a partir do vínculo, não da abstração.
Na modernidade, somos treinados a pensar o conhecimento como algo individual, textual, linear, com fatos objetivos validados por instituições. O conto popular rompe com isto ao vir de trás, de lado e de baixo; é uma forma de saber transmitida pela escuta, vivida em corpo coletivo, enraizada no tempo e no lugar, mas para lá deles também.
Ancestralidade, aqui, não é só linhagem biológica. É um modo de saber que transita entre vozes, que não se origina num “autor”, mas num tecido poroso de práticas, memórias e relações com o mundo natural. Sensível porque este saber é aprendido com o corpo, nos gestos repetidos, nas estações, nos cheiros, nos rituais, nas rezas murmuradas. É incorporado, não abstraído. Pulsa em meandros.
Os contos reconectam-nos com um modo de escuta partilhada, o que se escuta junto ao fogo, nas feiras, nos campos, nos funerais, nas noites longas. Convoca o lugar como co-autor, o tipo de vento, a mata, o animal, o sotaque, todos entram na narrativa. É assente numa teia de relações encantadas com o mundo não humano.
O conto permite reaprendermos desde o vínculo; quem escuta um conto sente-se numa linhagem, não isolado num discurso, mas parte de um eco imemorial, de uma raiz partilhada, de um colo antigo. Em vez de “ensinar a natureza”, o conto faz-nos lembrar que já sabíamos, que somos parte, noutro tempo, noutro corpo, noutro nome.
A Pele do Reencantamento da linguagem
Contos movem-se como encantamentos, não nomeiam diretamente o conceito, mas convocam a sua experiência, a sua textura, a sua temperatura, o seu ciclo. Isto abre a dissociação moderna entre a palavra e o mundo. Em vez de explicar a ecologia, fazem-na falar por meio das pedras, dos bichos, do vento.
Isto é fundamental, pois uma das feridas mais profundas da modernidade é a separação entre a linguagem e o mundo. A perda de parentesco. Passámos a usar palavras como ferramentas para descrever, quantificar, classificar, controlar. Mas esquecemos que, em muitas culturas, dizer é fazer aparecer. Nomear é tocar. Falar é convocar.
Reencantar a linguagem é restaurar a potência simbólica e transformadora da fala, ao lembrar que as palavras não descrevem apenas o mundo, mas criam relação com ele. Reencantar a linguagem devolve à língua, ao corpo e ao lugar o poder ritual de abrir portais, invocar ausentes, curar feridas. Este encantamento não explica, evoca. Em vez de dizer “a água está poluída”, conta que “o rio chorava com uma língua que ninguém ouvia”. Damos corpo ao que está ausente, esquecido, exilado e mutilado: a floresta torna-se voz, o silêncio torna-se personagem, a sombra torna-se prova.
Reencantar a linguagem permite sentir antes de saber, entrando numa vibração, ressoando antes de pensar. Os contos carregam este potencial de devolver às palavras a carne da imagem, o sangue do gesto, o sopro da memória. Uma linguagem encantada tem implicações profundas nas relações ecológicas, pois não impõe mudança, mas pode convidar à metamorfose. Possibilita abordar temas como colapso, luto climático e justiça territorial, sem ativar retração, pois o que é dito toca de modo sensorial, imagético e vivo. Deixamos de separar as linhas e somos abraçados pela teia, mesmo que esgaçada.

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