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Metamorfose e a Voz da Terra
A metamorfose é o código-matriz dos contos-criatura.
Fecha os olhos. Respira fundo. Sente o peso do seu corpo … um peso que é, em si mesmo, sagrado. Hoje permitimos que o mundo nos encontre. E, nesse encontro, descentramos as nossas exigências, deixamos de ser o personagem principal e encontramos a família viva que nos sustém. Re-encontramos os contos-criatura por outras passagens e trilhos.
O que é uma história, se não um pedaço de litoral, sempre em erosão, sempre em relação?
Nas profundezas da nossa memória coletiva, pulsam contos que recusam o tempo linear, o início e o fim. Estes são os contos de Metamorfose, mesmo no coração vivo dos mitos ecológicos, o lugar onde os símbolos se movem e respiram. Vivos. Quentes.
A metamorfose é o código-matriz. É a linguagem ciclica da Terra. É a prova de que tudo o que morre, se transforma.
A Lógica I-lógica do Ciclo
Pensa na metamorfose como um jogo incessante de lentes e espelhos. Não é apenas uma mudança de forma. São fractais vivos, em que o fim já contém o princípio, sendo este apenas uma forma larval daquele.
A transformação, tal como o ciclo da natureza, reflete a ideia de morte e renovação. Vemos isso no lobisomem, o metamorfo ibérico, que periodicamente alterna entre aspetos opostos de si, como se trocasse de pele. Aliás, a sabedoria popular diz-nos que as roupas descartadas de um lobisomem, que precisam ser queimadas para que o encantamento termine, por representarem a forma humana vazia que ele abandona ao assumir a forma animal.
Esta é a sabedoria do ciclo: que o horrível contém a promessa do belo, e que o belo é a transformação do horrível.
Desencantar o Herói: A Arquitetura da Separação
Mas qual é o custo ecológico? O Arco do Herói invisibiliza o coletivo, o território e o não-humano. A promessa de “auto-descoberta” força-nos a ser um “eu” solitário, desincorporado, a correr sem chão.
A Eco-Mitologia convida-nos a inverter esta lente: em vez de procurares por ti própria, deixa-te ser reivindicada pelas histórias. Em vez de domínio, procura ser transformada pelo desconhecido. A transformação mais profunda acontece quando aceitamos ser compostos de mundo, reconhecendo a agência dos seres não-humanos.
O Mistério Feminino: A Metamorfose em Flor
A fealdade da heroína, como em “A Velha Desfolada” ou em “Peau d’Âne” (A Pele de Burro), não é um estado permanente, mas uma transição, um tempo de reclusão e encasulamento que prepara a fase seguinte. É um estado limiar, uma fase “em que o horrível contém a promessa do belo”.
A pendularidade feminina é, muitas vezes, vista de fora pelo olhar masculino, que a divide em duas: a bela/branca e a feia/preta (profundamente racial, ver mais aqui). A narrativa racial e binária, típica da nossa cultura, antagoniza estas duas “faces” até eliminar a rival. Mas há ecos mais antigos, de encantamento e complexidade, pois a heroína, frequentemente guarda os ossos transformados ou a pele da rival. Numa sacralização e incorporação dos dois tempos na mesma mulher, na conciliação das duas fases numa só face. Onde a diferença se insere no ciclo-matriz.
Eco-Mitologia em Ação: O Corvo e os Sapatos de Ferro
Nos contos, as metamorfoses são atos dramáticos que nos alertam para a circulação da vida.
Seguindo os fios de Cardigos, pensemos na história portuguesa “A Noiva do Corvo” (AT 425A). O Corvo é um noivo-animal. Para o Corvo desaparecer, a noiva queima-lhe as penas, quebrando o encantamento, mas ele desaparece, dizendo-lhe que, para o voltar a ver, ela terá de “romper sapatos de ferro”. O sapato, que aqui é uma constrição que permite andar mais e mais depressa, transforma-se num instrumento de provação. Esta longa jornada para romper os sapatos de ferro não é apenas uma tribulação, mas uma viagem iniciática, uma metamorfose em ação. Mudança de pele.
Os contos ecoam que o conhecimento de si é uma consequência do estar com — com os ciclos, com a terra, com as plantas e criaturas. Não somos apenas o herói que vence; somos também o animal que se transforma, o vento que sopra a narrativa, ou a montanha que guarda a memória. O diálogo sempre foi mais fundo.
O Convite ao Entrelaçamento e à Não-Resolução
As histórias que nos transformam, as eco-mitologias de parentesco entre corpo e lugar, não precisam de um final feliz nem de resolução clara. Pedem disposição para sermos alterados. Em vez de “eu que procuro”, permitimos ser “a história que se conta através de mim”. Somos um fragmento, uma folha a cair ao lado, um pedaço de litoral sempre em relação. O conto-criatura conta-se em muitas línguas, fissuras e lugares; são contos-mundo que se movem dentro e fora de nós.
São mistérios fractais e recursivos que não se rematam ou explicam; entram-se, atravessam-se, aprofundam-se. Que possamos agradecer a tudo o que não foi resolvido. A tudo o que fica suspenso, a tremer, a arfar inacabado. Nem toda a história quer um final, algumas andam às voltas como o mundo. Apenas escuta o que o vento soprou na dobra entre dois pensamentos.

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