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Ecologia e Folclore do Medo
O Ciclo-Eco-Mítico compromete-se com o estudo e a escuta dos contos populares e do folclore da Península Ibérica. Maria da Manta, Maria Gancha, Homem do saco, Aventesma, Mouras, Homem das Sete Dentaduras, Coca, Insonho. Num ato sagrado de testemunhar as suas feridas, o que requer alguma coragem.
Tecemos com fios pré-cristãos, recordando possibilidades relacionais dos lugares e território vivo.
Mas, ao longo dos anos, ao resgatar fragmentos de bestiários ibéricos e estilhaços de seres primevos, quero notar como a grande maioria destas entidades se move a partir de uma ecologia baseada no medo, numa pedagogia que confunde bravura com violência. Não o digo do ponto de vista de negar os mistérios fundos da morte ou do escuro, da postura de tentar iluminar tudo para que a dor ou a impermanência deixem de existir. Digo-o como prevalência de dogmas e crenças intergeracionais que sistematicamente comunicam o lugar com perigoso, monstruoso e imprevisível.
Ecoando Maria Tatar, no seu livro Off With Their Heads, este arquivo popular segue as linhas da pedagogia de domesticação e controlo de crianças mal comportadas. Estes são seres que devoram e roubam, vampiros, sádicos, raptam pessoas vulneráveis e induzem pesadelos. Gigantes elementais que ecoam medos meteorológicos do fundo das noites frias, espalhando sustos intergeracionais pelas comunidades.
Assim, mesmo nesta camada antiga de diálogos com os lugares, já existe uma contaminação pelo medo que tende a deturpar a relação, o parentesco ou a confiança. Onde o próprio temor fica separado do sagrado.
A maioria dos autores refere como estas ladainhas eram contadas ou cantadas a crianças mal comportadas, como se isso atenuasse a pedagogia do terror de ser apavorado desde tenra idade. Substituindo e silenciando as múltiplas possibilidades de relação pelo medo. A psique moderna e fragmentada tem-se formado desde tempos imemoriais e até os seres do folclore disso nos recordam. Mas, aqui partimos do princípio que há tantas outras formas de narrar a paisagem e tantas outras maneiras de “educar” crianças, que não se baseiam no medo ou coerção. Que fomentam relação, responsabilidade, empatia e reciprocidade.
Tem sido uma longa fermentação, uma lenta ebulição da separação. Onde mesmo estas entidades de raízes «pré-cristãs», os supostos fragmentos da memória da Terra, são já moldados pelo medo, punição e separação.
Medo que tem sido gravado nos nossos ossos e nas camadas fundas deste lugar, distorcendo e desfazendo as relações.
Sob esta pedagogia, as relações ficam em vigiadas e cativeiro. Numa perversa linhagem de desestabilização baseada na coação à segurança, em vez de nos convidar à reverência. Um corte fundo da relacionalidade visceral, a que se liga e sente com o mundo não-humano.
A própria terra, ao ser constantemente interpretada e moldada segundo o susto e o medo, pode já ter-se esquecido de quem lho ensinou. Esta é uma ruptura, uma escuta das raízes invasoras que sustentam a nossa fome voraz, baseada na escassez. Mesmo o solo que considerávamos sagrado carrega o cheiro de uma coerção há muito enterrada.
A Elegância Perversa da Máquina da Separação
O que ainda me perturba mais, é como a racionalidade colonial moderna e arrogante, numa mistura das lógicas de Hobbes e Rousseau, vê isto como normal, pois as populações primitivas são consideradas inerentemente ignorantes e fundamentalmente medrosas. Replicando camadas extras de separação, negação e violência.
Este é um ciclo recursivo de desqualificação, que silencia até mesmo a dor do que foi exilado, numa constante amputação das relações. Nesta postura, as histórias primevas não importam e as suas feridas nem sequer contam como lesões.
Nesta lógica de separação temos um cruel motor duplo:
- Hobbes: no julgamento do selvagem como inerentemente desagradável, brutal e de curta vida.
- Rousseau: com o ideal do bom-selvagem, ainda abstrato, incorpóreo e estranhamente masculino.
Parecem opostos, mas juntos formam um duplo impasse. Ou o mundo primevo era violento e caótico, ou nobre, mas ingénuo. E sempre inevitavelmente ignorante. De qualquer forma, tinha de ser corrigido pela civilização.
Esta é a negação sobre a negação, na violência de não reconhecer a violência. Numa negação (ou mesmo paradoxalmente uma celebração) da destruição dos sistemas relacionais e cosmogénicos ancestrais de responsabilidade e reciprocidade. Esta é ferida profunda, onde fragmentos folclóricos baseados no medo são descartados como superstição primitiva, numa mutilação e amnésia normalizadas.
Tudo o que é relacional é chamado irracional, tudo o que é imensurável não é confiável, e tudo o que é ancestral é retrógrado (exceto se for para reclamar perversos legados de pureza).
Normalizada, a separação torna-se autoimune, salvando as crianças da “ignorância dos seus antepassados”. Muito cedo aprendemos a desconfiar e a sentir vergonha quando amamos uma árvore. A rir nervosamente dos sonhos. A inferiorizar os antepassados ignorantes e aterrorizados, enquanto, replicamos o próprio trauma codificado em contos e cantos. Testemunhamos agora a dor e o luto que a modernidade nega que existe, em demasiados ciclos de apagamento.
O Medo como Infraestrutura de Obediência
No bestiário popular que sobrou do tempo fundo, os espíritos da terra não são parentes, mas ameaças. As forças elementais não são recíprocas, mas punitivas. O poder não reside no testemunho mútuo, mas na vigilância predatória. A primeira introdução da criança ao mundo além do humano é: “Obedece ou serás comido.” “Fica quieto ou a criatura da noite virá.”
E esta é a primeira pedra da fundação de uma psique que teme a vida, cimentando um medo domesticado que substitui a curiosidade, a intimidade e a co-percepção. Evita a participação directa e não institucionalmente mediada. Estes seres são protocolos de neuroquímica social, ensinando às crianças que a floresta é castigo e labirinto e não um lugar seguro. Que todos os espíritos são suspeitos e diabólicos, e nunca parentes em reciprocidade. Que as maravilhas do corpo são perigosas e não sagradas. E que a desobediência deve ser sempre respondida com cosmologia predatória, numa doutrinação civilizadora.
A desconexão mantém-se codificada nas histórias e nas canções de embalar. Na forma como o luto e o desejo foram ensinados a permanecer pequenos, a temer o castigo e a aceitar o inevitável exílio da terra como «proteção».
O assustador é que estes contos e entidades carregavam memórias da terra, agora distorcidas pelo medo. Codificaram relações traumatizadas como «tradição», fazendo com que o terror domesticado parecesse herança, em marcas de trauma adaptadas à cultura da separação.
O Activismo Eco-Mítico não se retrai de escutar estas camadas assombradas, nomeando o uso indevido do mito. Recusando-se a romantizar o que continua distorcido, permanecendo na dor dos encantamentos herdados que se transformaram em prisões. Cerzimos os fios dos contos incompletos pelo medo, os sonhos feridos de um povo cercado, que, em urgência, codificou a sobrevivência, sacrificando a intimidade. São seres e contos que precisam de ser cuidados, desvendados e reescritos. Em curiosidade e ternura.
Reverência Trémula pelas Histórias Assombradas
Podemos envolver-nos com estes seres e assombrações, não os limitando a seres malignos, mas reconhecendo-os como espíritos traumatizados. Não os queremos envergonhar ou corrigir, mas podemos levantar-lhes as máscaras de dor, nomeando onde a lógica colonial, os medos patriarcais e as fábulas da escassez se infiltraram no solo ancestral.
“O que eras antes da ruptura?” perguntamos às entidades baseadas no medo, para as testemunhar sem as apagar ou exilar.
Bravamente resgatamos a admiração que substitui a obediência e as histórias podem terminar em ternura e não em dentadas afiadas. Descodificamos o medo nas relações silenciadas, listamos outras formas intuitivas, selvagens, tecidas de dor, míticas e metabólicas de relação que têm vindo a ser silenciadas.

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