Sofia Batalha, a formadora

Colecção da Casa Simbólica 

Curso de Feng Shui

De que forma o Feng Shui praticado no ocidente difere da sua origem?

  • Quando um consultor ocidental pratica feng shui será sempre de maneira diferente de um consultor oriental, sim ou não?
  • Será que se pode tomar como apropriação cultural as adaptações ocidentais?

 

O contexto histórico, cultural e geográfico dá-nos uma forma e conteúdo específico, sem que disso tenhamos noção. E uma forma necessariamente diferente e adaptada às nossas necessidades concretas enquanto ocidentais do século XXI.

Os estudiosos e mestres de feng shui orientais não reconhecem estas adaptações como válidas, tirando-lhes valor intrínseco. Não as sentem como legitimas e verdadeiras do seu precioso legado cultural. É claro que para praticar, seja o que for, é importante perceber o que se está a fazer. De onde vem a informação, como tem vindo a ser construída e sintetizada ao longo da história. A questão aqui é donde vem o feng shui e para onde vai evoluindo nas suas práticas diferenciadas.

 

Origens do Feng Shui Contemporâneo

Comecemos por esclarecer que o feng shui nada tem que ver com decoração ou arrumações (estas são ferramentas auxiliares na clarificação de um espaço). Também não tem nada que ver com regras cegas e dogmáticas de que se se-colocar-uma-fonte-ali-vai-ficar-tudo-bem-para-sempre.

O feng shui pretende procurar e aproveitar o melhor local e a melhor altura para lá estar, usufruindo da chamada «boa sorte», por nos encontrarmos no sítio certo, na altura certa. É uma ferramenta dinâmica, que não se baseia em receitas, mas numa compreensão multicamada do nosso contexto de vida, nomeadamente a nossa casa.

 

A cultura chinesa, que criou e cimentou esta ferramenta segundo a sua própria cosmologia (chi, yin e yang e cinco transformações), está baseada em três pilares filosóficos, ou três ensinamentos (SanJiao): Confucionismo, Taoismo e Budismo.

 

Genericamente pode dizer-se que o confucionismo é o caminho do homem, o taoísmo o caminho da natureza e o budismo o caminho do espírito. Todos os três lançam as bases da filosofia chinesa, no seu modo de agir e ver o mundo.

O Budismo nasce fora do território cultural e geográfico chinês, mas viaja através da rota da seda e acaba por se deixar contagiar e influenciar a história da China.

O sector Kagyupa, que é a terceira maior escola de budismo tibetano, também chamado de seita do chapéu preto (ou branco), foi a escola que mais influências reteve da metafísica chinesa incorporando-a na sua prática. Não é um budismo tibetano puro, nem é considerado budismo tradicional. Do ponto de vista das culturas comparativas, o budismo esotérico negro engloba as contribuições culturais da Índia, do Tibete e da China.
Esta escola de tradição oral absorveu algumas das ideias culturais e tradicionais chinesas, como o taoísmo, confucionismo, filosofia Ying-Yang, I-Ching, BaGua, Chi e Feng Shui. Eles integraram estes conhecimentos nas suas práticas de cura holística, adivinhação e ensinamentos budistas.
Esta seita de budismo esotérico tem a sua raiz na religião indígena tibetana Bon, a religião pré-budista do Tibete, que, segundo alguns especialistas em religiões xamânicas e animistas, remonta a cerca de dezoito mil anos.

 

Desde pelo menos o século XII da nossa era, que estes monges praticam feng shui, adaptado claro à sua própria visão e conceito do mundo.
Criaram o método das três portas, que alinha a entrada com o Bagua, enfatizam o fluxo de chi no espaço e nas pessoas, o uso de soluções transcendentais para reforçar remédios mundanos, o poder da intenção e o cultivo de si mesmo através da meditação.

 

O monge Lin Yun deu estas práticas a conhecer ao Ocidente nos anos 80, mas não foi ele que as criou, apenas as terá adaptado e disseminado à compreensão do mundo compreensão ocidental.

Esta abordagem é hoje conhecida como a Escola do Chapéu Negro e é a mais praticada no ocidente. É também a mais criticada, por se dizer que tem falta de fundamentos metafísicos, de seriedade ou de conhecimento, por ser demasiado recente ou não ter bases sérias.

É preciso ter em mente que, a prática clássica ou tradicional de Feng Shui (em todas as suas formas, métodos, escolas e abordagens – SanHe, San Yuan ou outros) tem um forte legado de secretismo imperial, de controle e poder, estratégia de guerra e das massas, seguindo uma filosofia associada ao Confucionismo e Legalismo. Não é, na sua camada mais superficial, uma prática esotérica, transcendental ou onde a intenção seja tida em conta (na prática ocidental os consultores usam estas ferramentas, mas não são usadas originalmente nestes métodos). Estes são métodos normativos, técnicos e teóricos. São considerados ramos da matemática.

 

Pode dizer-se que é um confronto antigo entre o lado esquerdo e direito do nosso cérebro. Um paradoxo humano milenar. Se por um lado temos a norma, a razão, a conta e a técnica, por outro temos a transcendência, a intenção, a imaginação e o ritual. Precisamos de ambos em doses equilibradas.

 

Apropriação cultural

Quando falamos da prática de uma filosofia ou ferramenta gerada e desenvolvida noutra cultura, tal como o Feng Shui, é sempre importante referirmos e falarmos sobre apropriação cultural.

O conceito de apropriação cultural surge num contexto cultural imperialista, onde os símbolos, ferramentas, histórias ou a identidade de um povo são explorados e erodidos por uma sociedade dominante, retirando-os do seu contexto e esvaziando-os dos seus significados originais. Ferem a honra das origens do conhecimento pondo em causa a identidade de uma cultura.

De forma muito simples, em Portugal não somos chineses. Nunca seremos. Não temos a mesma história, cultura ou geografia. O que podemos realmente aprender e praticar dentro do universo filosófico e metafísico chinês está sempre dependente do nosso contexto cultural, social e geográfico. Nunca praticaremos feng shui como um mestre chinês. A nossa prática será sempre pautada por um (inconsciente na maioria dos casos, mas necessário) sincretismo, ou seja, todos fazemos uma síntese, preferencialmente equilibrada, dos elementos díspares, originários das diferentes visões do mundo oriental e ocidental, assim como de doutrinas filosóficas distintas.

 

Por outro lado, vivemos, mais do que nunca, num mundo global onde é impensável interromper o intercâmbio cultural. Aliás sempre houve, na jornada humana, trocas de histórias e inspirações. Uma cultura forte e activa cresce e expande-se com estas trocas, confiando no processo.

 

O uso que fazemos dos conhecimentos e aprendizagens de feng shui deve ser feito sempre eticamente, de forma honrada e tendo sempre em consideração a sua origem, apesar da sua prática poder ser completamente diferente, tal como os monges Kagyupa têm feito desde o século XII.

 

Fontes:
https://aeon.co/essays/the-line-between-creativity-and-stealing-from-another-culture
https://serpentedalua.com/sobre/bibliografia-recomendada/uma-casa-feliz/
Artigo originalmente escrito para a Revista Vento e Água – Feng Shui LifeStyle, 12: https://ventoeagua.com/revistas/12/