Sofia Batalha

Colecção da Casa Simbólica 

Curso de Feng Shui

A leitura do interior da Casa

Como já sabemos originalmente o feng shui trata da paisagem desde sua veneração ao seu planeamento e organização, mantendo os habitantes em segurança e protegidos.
No entanto há cerca de duas centenas de anos começou também ser adaptado e usado no interior, uma adaptação que vai buscar o princípio do macrocosmo e microcosmo. Esta adaptação cria um novo sistema que se revê na noção de que o macrocosmo exterior da paisagem vai reverberar com o microcosmo interior da estrutura, ambos influenciando os habitantes.
Na génese do feng shui o que é analisado é a relação directa entre corpo humano e a paisagem, no seu contexto natural externo. Quando o interior da casa começa também ter algo dizer cria-se aqui uma relação intermédia, esta estrutura construída tem também as suas próprias características num microcosmos de paisagem envolvente e vai influenciar directamente os habitantes sendo também influenciada por eles.
Da leitura intermédia do espaço construído nasce o feng shui que utilizamos hoje, do interior da casa. Ainda para mais, por oposição a nossa vivência do exterior de milénios, hoje em dia passamos mais 80% do nosso tempo dentro de paredes.

Mais do que nunca estas paredes influenciam-nos e mais do que nunca é importante termos a noção do que lá temos como nos expressamos delas.

Desde da nossa origem que nos envolvemos experimentalmente e emocionalmente com paisagem o mesmo acontece com o microcosmo da nossa casa, numa escala também ela naturalmente mais reduzida, pois só o poder e escala de uma paisagem natural nos consegue facilmente activar uma sensação sagrada e de veneração.
No entanto é claro que conseguimos reproduzir essas poderosas emoções dentro da nossa casa, quando nos ligamos a ela de forma consciente e plena, alinhando-a com o nosso propósito.

Para tal é necessário temos uma noção clara do que expressamos nossa casa, do que lá se encontra, o que guardamos e como usamos e experimentamos o conteúdo da nossa casa.

Para além das paredes as nossas casas são construídas de memórias.

Memórias que contam histórias, a nossa e outras, interligadas.
A palavra memória vem do latim, de MEMOR, “aquele que se lembra”, de uma raiz Indo-Europeia MEN-, “pensar”, que nos deu também “mente”. Assim como do Grego “mnemis“. Em ambos os casos a palavra significa a conservação de uma lembrança. Para os gregos a memória estava coberta de um halo de divindade, pois referia-se à deusa Mnemosyne, mãe das Musas, que protegem as artes e a história.
Tudo que temos em casa contém memórias. Aliás há duas razões para trazermos objectos para casa, uma prática e outra e emocional, a última que geralmente está ligada à preservação de memórias.
Claro que as memórias nos constroem, sendo referências para quem somos. No entanto também nos podem destruir, quando ficamos demasiado agarrados ao que já passou e deixamos de ser capazes de evoluir de nos adaptar, repetindo eternamente padrões que não nos servem mais.
Um dos grandes desafios das memórias é que são transferidas involuntariamente para todos os objectos que permitimos que façam parte da nossa casa (sim porque os objectos tridimensionais carregam mais memórias que uma fotografia, exactamente pela sua capacidade de serem tocados). E as memórias que os objectos da nossa casa contem podem ser fortíssimas pois toda a sua envolvência energética e emocional está contida neles. E convivem diariamente connosco, fazendo parte do nosso ecossistema doméstico, normalmente de forma perfeitamente inconsciente por parte dos habitantes.
Uma das grandes dificuldades aquando da limpeza de acumulações num espaço é exactamente da ligação emocional aos objectos, porque presença destas memórias pode ser paradoxal, pois assim como constroem também podem destruir. Muitas vezes só conseguimos fazer limpezas a memórias contidas no espaço após ou durante um período desafiante na vida, depois de um divórcio, separação ou morte.

Este é um dos grandes desafios de quem vive em casa de família, pois são casas cheias de memórias e padrões e muitas vezes pesadas.

Num exercício muito simples se tem algum objecto que quando passa por ele se lembra de algo, alguém ou de alguma fase menos positiva na sua vida, permita-se de forma confiante, leve e plena libertar esse objecto. Com amor poderá oferecer-lo, vende-lo, doa-lo, recicla-lo ou mesmo destruí-lo.
Uma coisa é certa não deve nunca permitir que as suas memórias menos positivas que estejam presentes no seu espaço controlem ou condicionem sua vivência do presente na sua construção do futuro.