O feng shui nasce da observação e relação com o exterior, com a natureza e os seus ciclos.
Claro que a sua acção é orientada para o bem estar, segurança e prosperidade do ser humano. No entanto, como sabemos, os ser humano não é dissociado do seu contexto natural. Por mais que tente. Nós os humanos, somos sempre influenciados pela sorte do céu (tempo) e pela sorte da terra (espaço).

A quantidade de energia da natureza ultrapassa em grande escala a quantidade de energia dos seres humanos. Daí que o feng shui tenha surgido como uma disciplina que pretende domar, controlar e prever esta poderosa energia do exterior. Para que os habitantes de determinada zona sejam mais prósperos, saudáveis e felizes.

Ao longo dos milénios tem sido assim, controlar e adaptar o excesso de energia selvagem do exterior, da natureza, para benefício dos habitantes de determinado local. Intervindo profundamente na paisagem casa seja necessário. Foram construídas e destruídas civilizações e culturas inteiras durante este tempo e algo essencial mudou. A balança tombou para o outro lado. A quantidade de energia humana é agora, em alguns locais, muito maior que a quantidade de energia selvagem e natural. Como todos sabemos quantidade não quer dizer qualidade. As nossas intervenções no mundo natural, com o objectivo de criarmos qualidade de vida humana, fizeram com que a energia disponível para outros seres ou mesmo sistemas inteiros ficasse muito longe do necessário para o equilíbrio necessário.

Ao mesmo tempo que tirei a minha formação de feng shui aventurei-me também a aprender e praticar permacultura, um sistema também experiencial que trabalha a terra e os humanos em uníssono, tentando não desperdiçar nada, nem energia, nem água, nem quaisquer recursos. Para mim feng shui e permacultura são complementares, podem trabalhar em conjunto para atingir um equilíbrio comum.

Há milénios atrás o feng shui nasce da necessidade de segurança num mundo selvagem e imprevisível. Agora o feng shui pode ser aplicado de forma a abranger o mundo humano e o mundo natural, procurando o equilíbrio perdido. O que faz mal ao ambiente faz mal ao ser humano, nas suas vertentes físicas, mentais, emocionais e espirituais!

Como podemos então cuidar da terra e cuidar de nós, fisicamente e energeticamente falando?
Seguem-se algumas dicas de ajudar a terra, a casa e o corpo:

– Privilegiar materiais naturais – Algodão, linho, lãs, madeira natural, tintas. Os materiais naturais têm um chi (energia vital) mais fluído e constante, ao contrário dos materiais sintéticos e industriais cuja a energia é demasiado caótica e sem um padrão definido. Preferencialmente estes materiais devem ser certificados biológicos e idealmente provenientes de comércio justo. Os habitantes beneficiam muito mais de estarem rodeados de materiais naturais na sua casa pois a própria energia da casa fica mais estável.

– Poupar recursos – Gastar abundantemente os recursos disponíveis não é sinal de prosperidade. É sinal de não saber gerir a energia disponível, interna (emoções) e externa (corpo). Apagar as luzes quando não estão a ser necessárias, ter filtros nas torneiras para que gastem menos água, não fazer descargas completas no autoclismo são apenas algumas ideias para melhor gerir os recursos disponíveis.

– Optar por produtos de limpeza naturais – Detergentes para a loiça, roupa ou casa, shampos ou perfumes idealmente biológicos e de embalagens recicláveis ou re-usadas, ou mesmo fazê-los em casa. Imagina a quantidade de químicos nocivos têm os detergentes que normalmente usamos? Matam animais e queremos mesmo deitar-nos naquela fronha lavada e cheia de químicos? Ou comer naquele prato lavado com um detergente que mata 99% da vida marítima? Quer mesmo lavar-se com um sabão cheio de químicos para depois ter de usar um creme processado industrialmente para evitar ficar com a pele seca?

– Cuidado com os cheiros – Naturalmente que com milénios sem esgotos, as populações humanas inventaram mil maneiras de mascarar os maus cheiros que os rodeavam, de dejectos e decomposição. Hoje em dia o cheiro é ainda sinal de limpeza, o problema é a chamada poluição olfactiva. Pois os cheiros usados hoje em dia não são naturais, mas cheios de químicos e compostos extremamente agressivos. Quem trabalha com aromoterapia sabe a importância dos cheiros com que nos rodeamos. Prefira cheiros de fontes naturais, tais como incensos de resina natural ou óleos biológicos de aromoterapia.

– E o lixo? – O lixo é muitas vezes considerado um problema em feng shui. No entanto nem tudo o que produzimos é lixo. As cascas e restos de alimentos crus são alimento para a terra, devendo ser colocados num composto. Claro que nem toda a gente tem a hipótese de fazer compostagem em casa, mas podem conhecer alguém que precise de alimentar a sua terra. Por outro lado temos a reciclagem. Infelizmente vivemos num mundo de embalagens, de papel, metal e plástico. Idealmente devemos evitar as embalagens, podemos comprar a produtos granel e ter sacos de pano para comprar os legumes e fruta evitando o plástico. E reciclar!!

– Limpar acumulações – É um dos pilares do conceito de feng shui ocidental, pois como sociedade de consumo que somos, todos temos e adquirimos coisas demais, que com o passar do tempo nos sugam, pesam e bloqueiam a vários níveis. Podendo mesmo ser catalisadores de doenças. Muito se fala no libertar e limpar estas acumulações, mas pouco sobre as questões ecológicas a todo este processo. O feng shui não quer tudo novo e a brilhar sempre. O bom feng shui está nos objectos com significado e propósito, assim como no espaço livre. Então para resolver a acumulação na casa podemos reciclar, arranjar e re-usar móveis, aparelhos ou outro tipo de posses. Se virmos que não nos serve mesmo devemos tentar doar ou vender para que seja usado (caso não esteja estragado naturalmente). Mais importante que tudo é tentar não comprar ou adquirir mais coisas. O que podemos fazer com o que temos?

– A alimentação – Se gerimos de forma natural o exterior o mesmo devemos fazer para o interior. Preferir alimentos frescos e biológicos da época (idealmente sem embalagens ou re-usando embalagens antigas) e formas de cozinhar com menos óleos e gorduras (um litro de óleo pode contaminar vinte mil litros água!).

O que é natural, com o seu chi fluído e constante, emana uma energia benéfica. O cuidar do ambiente é um aliado poderoso do feng shui das nossas casas, cuidando do bem estar físico, emocional e energético de cada um dos seus habitantes!